quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

OPINIÃO - Nos 25 Anos do Ressurgimento da Banda de Nisa

Vai a Sociedade Musical Nisense assinalar a passagem de um quarto de século sobre a data do reatamento da actividade musical da Banda de Nisa, ocorrido em 1982, na altura inactiva há uns bons pares de anos.
É-nos sempre agradável trazer à lembrança acontecimentos que, de um certo modo, fizeram parte da nossa vida.
O que representou para nós naquele tempo, a reactivação da Banda? Como aparecemos envolvidos no processo? Foi um acaso e por acaso este existe?
Já foi escrito e pode sempre repetir-se: o apelo está lá, a páginas 187 da Monografia da Notável Vila de Nisa (1956) onde o seu autor, prof. José Francisco Figueiredo, sentencia, referindo-se à Banda de Nisa.
“Actualmente nota-se bastante desinteresse e apatia pela sobrevivência de tão apreciável corporação, que a todos os nisenses devia merecer extremos de carinhoso patrocínio. O brio da nossa terra impõe-nos, a todos, o dever de não deixarmos morrer a instituição que, desde 1844, tem sido a alegria das nossas festas e que, nas horas de luto, jamais deixou de interpretar, em fúnebres acordes, a dor dos nossos lares”.
O apelo foi lido e não por acaso aí a temos, a respeitável Banda, agora já com 163 aos, porventura a mais antiga a sul do Tejo, tentando cumprir, com o “carinhoso patrocínio” se não de todos, de muitos nisenses, a missão que lhe foi destinada à nascença.
É emocionante relembrar, foi há 25 anos, em Outubro, a Banda ressurgia, no mesmo ano (1982) em Abril, reabria as suas portas a sede da Sociedade Artística Nisense, restaurada, após dois anos em obras, com um salão de festas ampliado, lindo, e se aqui e agora o recordamos é tão só porque naquele tempo, a “Música” e a “Sociedade” eram uma só e a mesma família.
Não fosse a “Música” e provavelmente a Sociedade Artística não seria o que hoje é, restaurada que foi com comparticipações destinadas à restauração da Banda.
Em paga, uns poucos, muito fizeram para escorraçar de lá a actividade musical (1987), o que conseguiram. Mas isto é outra história...
É claro que o ressurgimento da Banda não começa em 1982, mas uns bons quatro anos antes, em Janeiro de 1979, e só o referimos pela oportunidade de aqui lembrar o apoio incondicional por parte do executivo da Câmara de Nisa, no seu todo, onde pontificavam o Dr. Carlos Bento Correia, na presidência e o Dr. José Manuel Basso, no pelouro da Cultura.
Os 25 anos, entretanto decorridos justificam as expectativas que então se criaram?
Estamos conscientes de que a nossa opinião, para algumas pessoas menos avisadas, parecerá sempre suspeita devido ao envolvimento nosso, no passado.
Ainda assim, sempre diremos que, com avanços e recuos, menor ou maior brilho nas actuações, com mais ou menos grupos musicais em actividade, menos ou mais músicos em actividade, continua a ser positiva a acção e cremos que o será mais ainda no futuro próximo, agora que nos garantem estar finalmente aprovado o projecto da sede, que tudo o indica, vai permitir iniciar a obra, fundamental para a sobrevivência futura da Sociedade Musical Nisense.
Da nossa parte, que nunca fomos, nem alguma vez seremos adeptos do “quanto pior, melhor”, enviamos um abraço a todos os antigos e também actuais dirigentes e responsáveis técnicos nas pessoas do seu actual presidente, João Manuel Palheta Maia e maestro, António Maria de Oliveira Charrinho.

- João Francisco Lopes - 5/10/07 -in "Jornal de Nisa"

quarta-feira, 24 de julho de 2013

AUGUSTO PINHEIRO: Grande pintor Naif de Nisa

 (Discurso proferido no dia 20 de Abril de 1987 - Feriado Municipal - na Sessão Solene de Homenagem a Intelectuais Nisenses)
" Augusto Pinheiro, comerciante de profissão, viveu até aos 66 anos afastado das tintas e pincéis.
Fazia muitos desenhos para bordados, actividade a que se dedicava sua esposa.
Publicou dois números da revista de bordados "Ponto Real", com muitas flores e ramagens.
Ficava bastante impressionado quando visitava uma exposição de pintura, e com o desejo enorme de começar também a pintar.
Um dia pegou num lápis de cor e papel e fez um lindo desenho. Do papel passou ao pano e começou a fazer um pequeno quadro. Daí em diante nunca mais parou. Em 1970/71 passou pela casa Ferreira a comprar as primeira tintas a óleo, os secantes, e aprendeu a isolar as telas de linho, as quais também são preparados por si.
Dois anos mais tarde, já com os quadros prontos, escreveu ao senhor arquitecto, crítico e pintor Mário de Oliveira, pedindo o favor de passar pelo seu escritório para lhe mostrar umas simples pinturas. Viu, gostou, e o pintor nem queria acreditar, parecia uma criança, pois julgava que tudo aquilo era uma brincadeira sem valor.
Foi o arquitecto Mário de Oliveira que o encaminhou e encorajou para continuar a pintar, pois logo qure tivesse duas ou três dezenas de quadros, voltaria a aparecer para seleccionar algumas das suas obras para um dia fazer uma exposição.

Augusto Pinheiro - O Circo
E assim foi, esta em Janeiro de 1974, na Galeria de Arte do Diário de Notícias.
Foi o seu primeiro êxito, pois a crítica a considerou como a mais coerente e inventiva. E pela mão daquele conceituado crítico, nesse mesmo ano, foi seleccionado para a exposição da A.I.C.A. (Associação Internacional dos Críticos de Arte), na Sociedade Nacional das Belas Artes, uma das exposições mais exigentes, porquanto é organizada por aquela associação.
A aprtir desta importante e significativa exposição a carreira artística de Augusto Pinheiro, teve sempre os maiores êxitos.
Em Madrid, em Maio de 1976, Agusto Pinheiro expõe na Galeria "Modena", especializada em arte "Naif". Foi um êxito total. Todos ficaram surpreendidos com a força cromática dos seus quadros, e, sobretudo, pela subtileza dos matizes.
Augusto Pinheiro, ganha aí os pergaminhos de um dos maiores pintores internacionais dentro do movimento "Naif", de tal maneira que o grande psiquiatra espanhol Vallejo Nagera, autor de vários livros e ensaios sobre a arte "Naif", classificou Augusto Pinheiro como um caso singular, não só pela sua pureza de emoções, onde por vezes o poético e o mágico se integram, como principalmente pela capacidade do seu iluminismo exterior.

Exposição em Nisa (1981) com a presença do Presidente da República, Ramalho Eanes
Não merece apenas citar os seus grandes êxitos artísticos depois desta exposição de Madrid, mas é justo dizer que chegou até Paris, no Salão dos Independentes, em Janeiro de 1982, e que em Lisboa teve em seguida grandes êxitos, mormente nas exposições da Galeria de S. Francisco e na Galeria "O País".
Como estamos na terra do pintor, é justo informar ainda, que Augusto Pinheiro, obteve também grandes êxitos nos Salões Ibéricos, organizados pela galeria do Casino Estoril, considerando o director desta prestigiosa galeria, Dr. Lima de Carvalho, as pinturas deste puro Naif como das melhores.
Augusto Pinheiro, continua a pintar com um entusiasmo autenticamente juvenil, o seu mundo imaginário, a sua ingenuidade perante o aspecto inspirador, e a transformação formal das coisas objectivas, deve ser entendido como o caminho pela qual o artista se alcança a si próprio, numa convicção íntima de toda a autenticidade da substância do seu ser.

Augusto Pinheiro - O Milagre das Rosas (Santa Isabel) - 1984
Meus senhores, e minhas senhoras, para terminar, penso que talvez seja oportuno dizer, o que é a pintura "Naif". Como se sabe, "Naif" é uma palavra francesa que tem muitos e variados significados, tais como ingénuo, simples, espontâneo, puro, etc. É uma arte, que nada tem de comum com a chamada arte erudita, e que constitui hoje um dos fenómenos sociais e artísticos à escala mundial.
E, Nisa, pode-se orgulhar, de possuir entre os seus filhos, o pintor Augusto Pinheiro, que já está classificado como um dos pintores mais significativos, não só no âmbito nacional, como internacional.
A arte é, sem dúvida, a forma mais positiva de comunicação. O artista erudito comunica uma mensagem; o artista que pratica o Naif não nos oferece essa mensagem, antes pinta como quem conta uma história ou relato emocional da sua personalidade.
É, isto, afinal, que nos tem oferecido Augusto Pinheiro: contar histórias da sua imaginação, cheia de encanto, de pureza e de lirismo."