sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

À FLOR DA PELE: Nisa, tão pobre estás!



Ó Nisa tão pobre estás
Cada vez mais pobrezinha
Já não tens dez tostões
P´ra comprar meia sardinha! (1)
São poucos ou nenhuns, os motivos de satisfação ao olharmos, retrospectivamente, para o ano que agora findou. A nível do concelho de Nisa bem pode dizer-se, sem receio de sermos desmentidos, que foi um ano em que o concelho “perdeu em toda a linha”.
Mais um ano desperdiçado
Diz o povo que “em tempo de guerra não se limpam as armas”, mas devem preparar-se os homens para as batalhas que se avizinham. Em tempo de crise e de agravamento dos problemas de natureza económica e social, mandaria o bom senso que a política local se norteasse pela prossecução de objectivos que tivessem em conta a necessidade de unir esforços e estes fossem orientados, prioritariamente, para a satisfação plena das necessidades das populações de um concelho cada vez mais envelhecido, despovoado e espoliado nos seus mais elementares direitos, entre estes, o acesso - em condições de igualdade aos dos residentes nas vilas e cidades – aos cuidados de saúde, à educação e à cultura.
 A realidade vivida em 2011 mostra, pelo contrário, que o concelho de Nisa tem vindo a regredir, em todas as áreas do desenvolvimento humano e que esse retrocesso é “fruto” não só, das políticas implementadas a nível do poder central, mas é, também, resultante do modo de actuação de um poder local fechado, voltado para si próprio e para as suas clientelas, que tem vindo a acumular, na mesma dimensão, erros e buracos financeiros, não aplicando, com rigor e sentido de justiça, os indispensáveis investimentos, no que toca a obras fundamentais para a melhoria das condições de vida dos seus habitantes.
A autarquia está pouco menos que paralisada. Dez anos de gestão desde 2001, a que se juntaram os do mandato anterior, foram um autêntico regabofe, com anúncios e concretização de iniciativas e obras faraónicas de que o concelho não tirou, até ao momento, qualquer mais valia.
Entaipar o futuro
As “Nisartes” deram no que deram: investimentos vultosos que geraram dívidas acumuladas. Depois, o vazio, para haver festa na praça ou para quando chegar novamente o festim eleitoral.
O designado, pomposamente, Centro Histórico da vila é o mais triste, vergonhoso e lamentável cartão de visita que alguma vez Nisa teve.
Era preferível fecharem a bastide, entaiparem as portas, como vêm fazendo muitos residentes nas casas devolutas para impedirem a sua vandalização e transformação em antros de droga e de doenças.
 As casas degradadas, em risco iminente de ruírem não merecem qualquer atenção da autarquia. Pode acontecer ali uma catástrofe, haver uma derrocada, pessoas feridas e desalojadas, mas isso pouco importa a uma Câmara mais voltada para o seu umbigo e em exportar uma imagem irreal, ficcionada.
Termas, Tejo, água, pedra, sol, tudo se desmoronou como que por encanto. Os habitantes do concelho vão pagar portagens na A23 (com “desconto”) talvez, como “compensação” por serem o único concelho que não tem acessos condignos à referida auto-estrada. Problema antigo, como muitos outros, que sucessivas vereações não quiseram ou não foram capazes de resolver.
A caricatura da política
Às razões de natureza técnica-financeira juntam-se-lhes as de ordem política, na sua face mais caricatural. A Câmara não publicita, no seu site, as actas das sessões do executivo. Vive-se, em Nisa, uma democracia, não musculada, mas mascarada, uma novela permanente, em que os munícipes são meros figurantes. Não se lhes reconhece capacidade crítica e quando algum tem a ousadia de apontar este ou aquele caminho, logo sobre ele se abate um coro de recriminações. Fazem-se propostas e projectos, de grande envergadura e arrojo, mas que não têm aplicação prática, nem qualquer utilidade visível e real. O projecto megalómano de Tolosa, a célebre Valquíria, as não menos “célebres” requalificações, onde a pedra fez jus ao logótipo da autarquia, o desleixo e a incúria que levaram ao abandono do Complexo Turístico da Barragem do Fratel, as festas e comezainas em inaugurações faustosas, são alguns dos exemplos de uma gestão local que arruinou e fez regredir, como nenhuma outra, o concelho de Nisa.
Ao tempo da abundância para “inglês ver” sucede agora o dos cofres e carteiras rotas e vazias, sem dinheiro – ou sem vontade – sequer, para acudir a obras simples e de extrema necessidade, como a da reparação da estrada do Pé da Serra, cujo piso aluiu há um ano na descida da Senhora da Graça.
 Perder em toda a linha
O concelho de Nisa perdeu, por decisão da ULSNA que a autarquia não contrariou, cinco extensões de saúde, num total de treze, no distrito. O “livro verde” da chamada reforma da administração local, aponta para a extinção de cinco freguesias, quatro das quais lideradas pela CDU.
Uma e outra situação – a concretizarem-se as extinções das freguesias rurais – não acontecem por acaso. O concelho de Nisa é golpeado, mortalmente, com a retirada de serviços essenciais, únicos, e de proximidade com os seus habitantes, em aldeias onde o envelhecimento, as baixas reformas e a falta de meios alternativos de transporte irão condenar à solidão e à morte prematura, centenas de cidadãos tão portugueses e de corpo inteiro como são os das cidades e vilas do litoral. É a discriminação, a segregação na sua forma mais violenta e despudorada, decretada por comissários nacionais dos grandes banqueiros e executada por gestores de falinhas mansas e fatos Armani.
Em Avis, os órgãos do poder local puseram-se ao lado das populações, não engoliram sapos, reagiram como cidadãos, clamaram pela justiça que lhes era devida e venceram.
Em Nisa, calaram, iludidos, talvez pela promessa de alguma verba para obra sonante.
Não reagiram, não informaram as populações e, sobretudo, não as congregaram em torno de um protesto (justo) que era de todos. Ficaram “bem vistos” pelo poder central e quando confrontados com a indignação e desencanto das populações, encenaram, à pressa, tão à pressa que deu nas vistas, um simulacro de protesto sob a forma de um comunicado partidário e de uma moção.
Falta de solidariedade institucional
A Câmara, muito ligeira a intentar acções judiciais quando se belisca o nome da sua presidente, não sabe onde ficam as mesmas instâncias se o objectivo é travar medidas injustas e discriminatórias contra os seus munícipes e repor a justiça.
Numa das regiões mais desfavorecidas do país, onde se requerem acções e medidas conjuntas das instituições para a resolução dos problemas com que se debatem, o município de Nisa parece viver na Idade Média, alheio e isolado dos problemas dos vizinhos, como se estes não lhe dissessem respeito.
 O encerramento do Ramal de Cáceres não nos diz nada? Não é connosco? O protesto contra a introdução de portagens nas SCUTs passa-nos ao lado e resolve-se com uma moção? Os acessos do concelho de Nisa à A23 estão bem assim? Não se deve lutar por acessos como os outros concelhos têm?
O direito dos doentes ao transporte gratuito em ambulâncias dos Bombeiros é um assunto encerrado? As corporações de Bombeiros vivem tão desafogadamente que podem passar sem essa fonte de receita?
Numa terra de artes, artesãos, de cultura, não existe uma política municipal nessa área, apoiando-se as associações sem um critério de rigor, de análise e de apreço pelo trabalho desenvolvido. Fundamental é ter iniciativas que, directa ou indirectamente, promovam o que a Câmara (não) faz e não belisquem com o trabalho desta, porque associações autónomas e independentes são olhadas de soslaio pelo poder vigente e consideradas “adversários”.
Um Cine Teatro “fantasma”
É uma gestão sem horizontes, sem planeamento de médio e longo prazo, fechada, para dentro de si própria e centrada nos objectivos políticos e eleitorais imediatos. Tão fechada que nem sequer consegue dinamizar, manter aberto, fazer desempenhar o papel que lhe cabe em termos da promoção e dinamização cultural, um espaço de excelência, dos melhores do Alto Alentejo: o Cine Teatro de Nisa.
Tudo isto seria triste e dramático se não constituísse, ao mesmo tempo, um paradoxo: foi a própria Câmara que salvou da ruína e do abandono e fez “ressuscitar” como marco cultural do concelho e região, o Cine Teatro. Ali, se projectaram, em estreia, filmes de grande sucesso, espectáculos de teatro e musicais com grandes nomes da canção, como Carlos do Carmo, Cesária Évora, Fernando Tordo e tantos, tantos outros.
Agora é um edifício quase “fantasma”, sem chama e sem vida. Não há dinheiro para exibir, semanalmente, um filme, quando no concelho vizinho de Vila Velha de Ródão há uma programação regular e cuidada.
Perante tamanha imagem de imobilismo, urge perguntar: como foi possível chegar a este “estado de coisas”?
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 4/1/2012

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

MEMÓRIA - Marco da cultura popular no concelho

O Rancho Típico das Cantarinhas nasceu em 1964
Em 1964, as marchas populares em Nisa, estiveram na génese da criação de um grupo musical e etnográfico que, por muitos e bons anos, levaria bem alto e bem longe, o nome desta "terra bordada de encantos": o Rancho Típico das Cantarinhas de Nisa.
O seu principal obreiro e dinamizador foi Rodrigues Correia, um nortenho, artista amador de teatro, chegado há pouco tempo ao Alentejo.
As Maneirinhas (O início do Rancho)
"Nas marchas de Santo António, véspera da Feira das Cerejas, o ti Dionísio Calhabré e a senhora Teodolinda começaram as cantar as marchas", recorda Maria Dinis Pereira.
"Ela cantava e o ti Dionísio tocava o banjo. Deu-se em juntar muita gente. O senhor Rodrigues Correia, que estava em Nisa há pouco tempo e morava na Rua Direita, ouvi-os e juntou os gaiatos que por ali havia e começou a marchar com eles. O Rancho, a bem dizer, começou com uma marcha. Divulgou-se esta iniciativa e começaram a vir crianças de vários sítios da vila. Aí ele pensou em fazer uma marcha. Com a "Nisa Velhinha" e "A Porta da Vila", que são marchas, é assim que começa o Rancho."
Dinis Pereira ainda se lembra de, na véspera da Feira, à noite, os gaiatos andarem a marchar pelo recinto da feira e de o ti Fantocha, que tinha um botequim, começar a dar massa frita e pirolitos aos miúdos.
Por ocasião da inauguração da Casa do Povo de Nisa, Rodrigues Correia lembra-se de se apresentar com os miúdos trajados a rigor, no acto solene, presidido pelo ministro Gonçalves Proença. No início, o Rancho chamava-se Rancho Infantil de Nossa Senhora da Graça e manteve este nome quando apareceu o das Cantarinhas. Foi uma grande apresentação e a partir daqui as bases da criação do Rancho adulto estavam lançadas.
"No início não havia músicas, nem letras e muito menos recolha de modas tradicionais", explica Maria Dinis.
"O vizinho Luís Félix encarregou-se de fazer as músicas e ao Dr. Gomes Correia ficou a incumbência das letras. Foi assim que nasceram "As maneirinhas", Passinhos da Fonte da Pipa", "Bailarico da Senhora da Graça" , "As brincadeiras da Devesa" e "A moda dos estralos (popular/antiga)".
Com a memória bem "fresca" Maria Dinis não resiste a contar um episódio que esteve na origem da criação de mais uma moda.
" O senhor Rodrigues Correia viu que as moças escorregavam no sobrado e lembrou-se de pedir aos seus colaboradores ( Luís Félix e Gomes Correia) para lhe fazerem uma música em que dançassem descalços. É assim que nasce o estribilho, muito conhecido de: "Ai, ai eu de Nisa sou / Sapatos não tenho, ao balho (baile) não vou".
Outra curiosidade, residia na florinha que ornamentava os sapatos das raparigas.
"Os sapatos tinham uns pompons, umas bolinhas de lã, porque cá em Nisa dizia-se que quando as cachopas calçavam umas galochas, que era do mais barato que havia, as mães punham-lhe essa bolinha para dar mais graça e importância aos sapatos. No Rancho usavam- se as bolinhas vermelhas porque destacava no sapato preto e combinava com a cinta do traje masculino."
Artigo publicado no "Jornal de Nisa" - 1ª série - nº