domingo, 18 de dezembro de 2011

TRADIÇÕES: RENDEIRAS DE NIZA *

Nos confins do Alto Alentejo, encontra-se, localizada em Niza, uma antiga e curiosa indústria – a das rendas.É interessante ver as rendeiras, sentadas em tripeças, junto das portas, vestidas com os trajos característicos – saias escuras com barras claras, roupinhas de pano, lenço traçado sobre o peito, e mantilha curta na cabeça ou o clássico chapéu nizense; adornadas com gargantilhas e fios de ouro, onde predominam os antigos hábitos de Christo, de ouro esmaltado.Umas, com o rebolo sobre os joelhos, vão fazendo as rendas de colchete, qual delas a mais complicada, ou desfiando no alvo pano de linho os entremeios tão caprichosos, produtos de extrema paciência; outras fazem rendas de agulha, que servem as mais das vezes para colchas que levam anos a compor e que passam gerações guardadas nos arcazes, servindo somente em dias festivos de bodas ou batizados.
A indústria de rendas de Niza – até há pouco restringida quasi ao uso local, - tem ultimamente exportado muitos e belos exemplares, notando-se por isso um certo desenvolvimento no labor das rendeiras, que oxalá não abandonem os modelos e desenhos que ainda seguem e imprimem às suas rendas um carácter acentuadamente regional.
NOTAS: Na fig. 1 estão representadas duas rendeiras trabalhando à porta de casa nas rendas de rebolo, o mesmo sucedendo na fig. 3, onde essas rendeiras são acompanhadas por outra mulher que desfia um entremeio. Na fig. 2, das três mulheres, tipicamente vestidas, a do meio trabalha em renda de agulha.
Luís Keil
* Este texto de Luís Keil deve remontar ao início dos anos 40 do século passado quando o autor elaborou o Inventário Artístico de Portugal (Distrito de Portalegre -1943)
Publicado no semanário "Alto Alentejo" - 3.8.2011

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

À FLOR DA PELE: José Francisco Figueiredo

Retrato de um professor e de um cidadão
Não conheci o professor José Francisco Figueiredo. Quando faleceu, a 27 de Agosto de 1951, eu tinha pouco mais de quatro meses de vida, mas não esqueço a influência que ao longo de muitos anos viria a exercer sobre mim, desde logo quando, dez anos mais tarde, recebi como prémio escolar a sua “Monografia da Notável Vila de Nisa”, oferecida pelo “Exmo Senhor Doutor João António da Silva Caldeira”, sendo director da Escola, António Paralta de Figueiredo, filho do prof. José Francisco Figueiredo.
O registo que segue é uma evocação e homenagem a um homem bom de Nisa, rigoroso e metódico professor, defensor do Estado Novo e da moral cristã, mas, acima de tudo, um bairrista, talvez o maior e mais dinâmico promotor da “pátria nizorra” e do Alentejo no século passado.
O professor
José Francisco Figueiredo nasceu em Nisa, na Praça do Município, a 10 de Junho de 1884. Foram seus pais, José da Cruz Figueiredo e Josefa Tomásia Caldeira.
Entrou para a Escola Primária no Rossio, tendo como professor o Padre José Ribeirinho.
Fez a preparação para o Seminário e a instrução secundária, tendo ingressado no curso teológico que concluiu em 1902, no Seminário Diocesano, ao mesmo tempo que, com 18 anos, era diplomado pela Escola Normal de Portalegre.
José Francisco Figueiredo, aluno brilhante, não seguiu a carreira eclesiástica que se lhe augurara ao reconhecer que trilhara caminhos de vocação diferente da sua.
Em Nisa, ainda hoje, há que garanta que tal se ficou a dever ao facto de, numa das raras visitas à terra se ter enamorado da mulher com quem viria a casar. Verdade ou não, José Francisco afastou-se dos degraus do altar, mantendo um fundo sentimento religioso e inexcedível fervor. Nisa perdeu um padre e ganhou um professor. E que professor...
Começa a leccionar na vila em 1903, em cursos particulares das disciplinas de preparação dos Seminários e dos dois primeiros anos do liceu. De 1908 a 1911 desempenha o lugar de ajudante de professor na Escola do Rossio, do qual foi nomeado efectivo em 13 de Setembro de 1913.
Em Março desse ano é escolhido por ocasião da Festa da Árvore para proferir o discurso laudatório, sendo na ocasião editado um opúsculo “ O Culto da Árvore” que a Câmara de Nisa recentemente reeditou.
Ao ensino na Escola do Rossio, seguiam-se as lições no “laboratório”, designação para o espaço da casa na Rua da Fonte, onde vivia com a esposa Maria da Graça Paralta Figueiredo e os dois filhos Lucília e António, ainda crianças.
Era aí no “laboratório” que o esperavam, todos os dias, os alunos que o Mestre preparava para o exame ao liceu.
“Não lhe bastava ensinar – escreve João António da Silva Caldeira, autor da revisão e prefácio da “Monografia da Notável Vila de Nisa – queria que os alunos soubessem e para isso possuía e promovia, calorosamente, o gosto e o culto da perfeição”.
José Francisco Figueiredo foi professor na instrução primária de gerações de meio século e na secundária das de alguns lustros, tendo sido “mestre por vocação e devoção, por meditação e acção e por ciência e consciência”. (1)
Do curso particular que manteve durante vários anos, disse um dia que lhe “ficou a consolação de ter contribuído para alicerçar vigorosamente mentalidades que muito se têm notabilizado nos vários ramos da actividade social”.
Director da Escola Dr. Graça (Escola do Rossio) de 1923 a 1933, dinâmico e carinhoso protector da Caixa Escolar que garantia apoio aos alunos mais pobres, José Francisco Figueiredo é nomeado a 7 de Maio de 1929 como Inspector da Região Escolar de Portalegre, lugar que não manteve e a 13 de Junho de 1934 é nomeado delegado da Inspecção Escolar, funções com que terminou a sua carreira profissional em 1945.
Em 10 de Junho de 1950, em cerimónia realizada na Sociedade de Geografia de Lisboa e presidida pelo Chefe do Estado é-lhe atribuída a insígnia de Cavaleiro da Ordem de Instrução Pública, sendo escolhido, entre os agraciados para proferir o discurso de agradecimento colectivo.
Jornalista e cidadão interveniente
José Francisco Figueiredo não foi apenas um ilustre professor. A poucos nisenses, no século passado se lhe podem reconhecer o mérito de ter pugnado com tanta persistência e denodo pelo progresso da sua terra. Desde 1911 e até à doença que o viria vitimar, nunca o Mestre deixou de escrever e reclamar para Nisa a criação de infra-estruturas e o desenvolvimento de que carecia.
Publicou centenas de artigos, quer em jornais de âmbito nacional como o “Diário de Notícias” ou “O Século”, quer de cariz regional desde “O Distrito de Portalegre”, “Brados do Alentejo”, Correio de Nisa”, entre tantos outros.
Artigos que tinham um traço comum: a elevação de Nisa e do concelho, das suas gentes, e nos quais apresentava sugestões ou formulava protestos, pedindo a justiça que era devida.
Problemas como as instalações dos Correios, a tentativa (1933) de desmembramento do concelho com o projecto de anexação de Amieira ao do Gavião, a construção do Teatro Novo, a instalação de uma Biblioteca Pública e do Museu Regional, ou a implantação da rede de águas de abastecimento público, mereceram as suas críticas ou louvores, numa escrita escorreita e cristalina.
A defesa do património e a preservação dos usos e costumes da “Corte das Areias” estiveram também no centro das suas atenções. Alentejano e alentejanista, deixou brilhante colaboração nas páginas do “Almanaque Alentejano” e da “Revista Alentejana” da Casa do Alentejo.
Escreveu diversos artigos sobre as tradições de Nisa, desde o casamento aos modos de vestir (traje) em textos publicados na “Etnografia Portuguesa” sob a direcção de Leite de Vasconcelos.
Não se ficou por aqui a acção de José Francisco Figueiredo em prol da sua terra.
No campo social desempenhou funções na gerência da Misericórdia em 1911, 1915 e 1940, nestes dois últimos anos como Provedor.
Foi um cuidadoso bibliotecário do Clube Nisense, tendo enriquecido a modesta biblioteca com obras literárias obtidas através de pedidos aos sócios.
Elaborou os estatutos da Sociedade Artística Nisense; propôs e viu concretizada a erecção de um busto no jardim público de Nisa, em memória do médico Dr. Francisco Miguéns, inaugurado a 27 de Maio de 1945, tendo redigido e editado o opúsculo “O Monumento”, discurso proferido no acto solene e evocativo.
A Monografia de Nisa
O amor ao chão pátrio levou-o a escrever a “Monografia da Notável Vila de Nisa”, sequência de um trabalho original que em 1943 apresentou num concurso público promovido pelo SNI na Figueira da Foz. O trabalho com o nome de “Breve Monografia da Notável Vila de Nisa” viria a ser premiado e estimulou o insigne Mestre para escrever uma obra de maior envergadura que, de alguma forma, estabelecesse uma ponte e eliminasse o hiato decorrido desde a edição da “Memória Histórica “ de Motta e Moura (1877).
Esta foi a tarefa derradeira a que o Mestre meteu ombros e que, por sua infelicidade, já não veria publicada em letra de imprensa.
A “Monografia da Notável Vila de Nisa”, de José Francisco Figueiredo, com 482 páginas distribuídas por 15 capítulos viria a ser editada em 1956, cinco anos após a morte do seu autor, com lançamento público no dia 16 de Setembro de 1956, data em que lhe foi feita pública evocação com o descerramento de uma placa de romagem no jazigo do cemitério de Nisa onde repousam os seus restos mortais e com uma sessão solene no Cine-Teatro.
A questão política e a questão religiosa
A “Monografia da Notável Vila de Nisa” é uma obra que prestigia e enobrece a memória do seu autor e um tratado de referências históricas, sociais, económicas, culturais e até políticas que nenhum nisense ou estudioso pode ignorar.
Não será o retrato perfeito de uma determinada época. É uma visão do autor, num período histórico em que as liberdades de expressão e opinião estavam cerceadas.
Não se podia criticar o regime, nem tão pouco afrontá-lo, ao de leve, mesmo a nível local.
José Francisco Figueiredo, cidadão impoluto, conservador e católico, ousou enfrentar um presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Nisa, militar de carreira, servidor da Dictadura, o tenente António Falcão.
Descontente e indignado com algumas decisões que feriam e desrespeitavam conterrâneos seus, nomeadamente, médicos e farmacêuticos, o professor José Francisco assinou várias petições endereçadas ao Governo Civil de Portalegre, na altura liderado por outra figura militar, o capitão Vaz Monteiro, nas quais denunciava várias situações.
Tanto bastou para que fosse considerado “persona non grata” pelo tenente Falcão que, em desespero de causa, lhe exigiu, publicamente, a entrega de 7.257 escudos referentes à arrematação dos bens de D. Rosa Maria Mousinho, legados à Escola de Nisa e que estavam sob administração do professor José Francisco Figueiredo, por delegação da anterior Comissão Administrativa da Câmara, presidida pelo Dr. Francisco Mourato Peliquito.
Em 22 de Janeiro de 1931, na reunião da Comissão Administrativa (2), que integrava António Joaquim Fraústo, presidente, Júlio Mourato Grave e João da Cruz Carita (Canhoto), vogais, foram aprovadas “as contas apresentadas pelo prof. José Francisco Figueiredo, respeitando ao legado de Dona Rosa Maria Mousinho achando-as conforme, verificando com prazer que a administração do mesmo legado foi honesta”.
O tenente Falcão faltou, alegando doença. Não se conhece decisão posterior da Comissão Administrativa ou diligência do seu presidente, a formular qualquer pedido de desculpas e a repor a verdade dos factos. A Dictadura era mesmo...dura.
Católico convicto e fervoroso, José Francisco Figueiredo não temia a verdade, quando se tratava do bem supremo de Nisa. Por diversas vezes, em escritos dispersos ou na sua “Monografia” defendeu a manutenção da administração das ermidas da Senhora da Graça e da Senhora dos Prazeres por parte do Município como, de resto, desde tempos imemoriais acontecia.
A mesma percepção – honras lhes sejam feitas - tiveram várias administrações municipais que fizeram da manutenção do sítio da Senhora da Graça, um dos seus principais desideratos e só abdicaram dessa responsabilidade e dever quando confrontados com uma intimação do Ministério das Finanças, nos anos 40. E, mesmo assim resistiram e foram protelando como puderam, a sua transferência para a Igreja.
A Senhora da Graça nunca pertenceu à Paróquia. Que fique o registo e não se agitem mais fantasmas de “perseguições liberais” ou de “ódios republicanos”.
Homenagem tardia
José Francisco Figueiredo “serviu – cito uma vez mais o Dr. João António da Silva Caldeira – dedicada e cristãmente, os altos comandos espirituais e morais, ora a ensinar os patrícios e a engrandecer e enaltecer a sua terra, ora protegendo e auxiliando os da sua gente e socorrendo e encaminhando, pela palavra seguida de rigoroso exemplo, os desprotegidos e aguilhoados da desventura”.
Pelo seu exemplo, pelo seu carácter, pelo amor e dedicação à sua terra, não merecia que só após 50 anos da publicação da sua “Monografia” (2006) a Câmara de Nisa tenha resolvido atribuir o seu nome a uma rua da vila, no Bairro da Cevadeira, junto à Escola do Convento.
É uma história com final feliz, a de um cidadão e professor que “não passou a vida a servir-se”: SERVIU.
Nisa e os seus filhos que têm memória, agradecem.
NOTAS
(1) Dr. José António da Silva Caldeira – Prefácio – “Monografia da Notável Vila de Nisa”
(2) Actas das Sessões da Câmara Municipal de Nisa – 1929/1932
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 28/9/20

domingo, 11 de dezembro de 2011

À FLOR DA PELE - A emigração nisense nos anos 60

Este parte, aquele parte / E todos, todos se vão. / Galiza, ficas sem homens / Que possam cortar teu pão.Rosália de Castro (poetisa galega)

A emigração portuguesa para França, nas décadas de 60 e 70 do século passado, particularmente, a dos norte-alentejanos, em busca da esperança e de melhores condições de vida, representou uma autêntica epopeia, escrita com palavras de sofrimento, coragem e saudade. Está por fazer, ainda, o retrato dessa época em que as aldeias e vilas do Alentejo começaram a ficar desertas e a verem partir, pela calada da noite, os braços válidos e activos dos homens a quem o país negava o essencial de uma vida digna.
Falar de emigração
Nisa, três da tarde, num dia de calor sufocante. A casa, no Boqueirão, onde funcionou durante anos a delegação concelhia da Assistência Nacional aos Tuberculosos, de triste memória, serve agora de Centro de Convívio onde idosos de várias idades podem jogar às cartas, xadrez, dominó, ver televisão ou ler jornais e revistas.
Aí encontrámos um grupo de nisenses, com uma história de vida comum, a da emigração. Três deles demandaram terras de França, e são viúvos. O outro, abalou até Lisboa. Todos, à procura de uma vida melhor.
Percursos de vida que quiseram partilhar connosco e que constituem pequenas amostras da realidade social e política vivida em Portugal nos anos 60.
Joaquim da Graça Basso, o mais velho do grupo, tem 81 anos, 22 dos quais a trabalhar em França na região de Tours.
“Fui para França em 1965 à procura de trabalho e de melhores condições de vida. Em Nisa estive até aos 35 anos, partia e fornecia pedra para as obras. A minha mulher vendia peixe. Era uma vida de sacrifício e pouco rentável, mas íamos sobrevivendo, até que começou a faltar trabalho e fui obrigado a emigrar. Estive três meses a trabalhar sem contrato, como servente. Depois as coisas compuseram-se e ganhei a minha reforma a trabalhar na construção civil.”
Joaquim Basso não gosta de recordar o que passou para chegar a França e prefere, antes, lembrar o que a vida de emigrante lhe proporcionou.
“Trabalhávamos muito e no duro, mas se não tivesse emigrado nunca poderia ter construído o prédio que tenho e ter pago os estudos ao meu filho que se formou em Medicina. Acho que os emigrantes deviam ser homenageados em Nisa, com um monumento, para que as pessoas não esqueçam o regime que tivemos e a história dos milhares de nisenses que foram obrigados a partir, uma história escrita com sangue, suor e lágrimas”.
Manuel Quintino da Silva Dinis (Manuel Comporta), com 70 anos, é o mais novo dos quatro, e talvez por isso, o que tem mais “fresco” na memória, o drama da emigração.
“Fui para França, “a salto”, clandestinamente, em1966. Trabalhava no campo e ganhava-se pouco. Segui o rumo de outros conterrâneos e do que passei para chegar a Toulouse, fiz umas quadras para registo dos mais novos. Em França trabalhei 3 anos na construção civil e mais tarde numa estação de serviço da Móbil onde passei à reforma, em 1996. Dois dos meus filhos nasceram em França, um foi de cá com mês e meio de vida. Reparto a minha vida entre França e Portugal. Venho muitas vezes a Nisa matar saudades, os meus filhos gostam da terra e também cá vêm.”
Manuel Dinis fala da França com orgulho e gratidão. “Deu-me trabalho, uma vida melhor e mais digna. Deu-nos a liberdade que cá não tínhamos e por isso também penso que se justifica uma homenagem aos emigrantes, aos filhos de Nisa que abalaram para França, para outros países e também para Lisboa e outras terras portuguesas. Um monumento seria de inteira justiça, pelo que nós sofremos e pelo que demos ao país.”
António Maria Marquês, 80 anos, não precisou de passaporte de turista, nem de ir “a salto” para rumar até à capital.
“Tinha 34 anos quando abalei para Lisboa. Trabalhava no campo, nem sempre havia trabalho, ganhava-se mal e era preciso sustentar a família. Trabalhei na Presmalte e na Fábrica de Fogões Portugal, na Póvoa de Santa Iria. Reformei-me aos 65 anos e regressei a Nisa. Como me sentia com forças e durante algum tempo ainda trabalhei como servente de pedreiro.”
Gosta de passar a tarde no Centro de Convívio, quando há companheiros e ali se entretém a jogar dominó e a olhar de soslaio algum programa de televisão.
De França, ouve com atenção o que os companheiros lhe contam e dá o seu assentimento à ideia de um monumento aos emigrantes, ele que também foi emigrante no seu próprio país.
António Maria Salgueiro, abalou para França em 1966. Fixou-se na zona onde residem e trabalham a maioria dos nisenses em terras gaulesas, a vila de Azay-le-Rideau, na região de Indre et Loire, no centro de França. Emigrou pelas mesmas razões dos seus companheiros, tendo trabalhado na construção civil e numa fábrica de tijolo.
Reformado, 79 anos, divide a sua vida entre Portugal e França.
“ A França deu-me a vida que tenho. Cá andava sempre com uma mão detrás e outra frente. Tenho três filhos, dois estão em França e a minha filha está na Policia, em Lisboa. Gosto de vir a Nisa e encontrar-me com os meus “artilheiros”, passar um pouco de tempo no jardim, no centro de convívio ou a fazer qualquer coisa no campo. Quem se habituou ao trabalho nunca se desabitua. Em França para se ganhar e poupar alguma coisa tínhamos que trabalhar no duro. Não pensem que nos davam o salário e as condições de mão beijada. Não. Por isso, concordo com o que disseram sobre o monumento aos emigrantes e acho que já devia estar feito.
Os nisenses estão bem vistos e integrados em França, principalmente na região de Tours, onde moro. É justo que reconheçam o que nós fizemos pelo país”.
Jaime Cortesão em “Os Emigrantes” escreveu: “ Partir é quase morrer. / Pode ser p´ra nunca mais: / Dentro do peito a bater / Um sino toca a sinais.
Manuel Dinis (Comporta) deixa-nos um relato, em verso, do que foi a epopeia da emigração portuguesa clandestina para França. Um drama que ele próprio viveu e sentiu na pele. Em busca de um futuro melhor!

A ida de um clandestino de Portugal para França – Anos 60
Abalei da minha terra
Sem dinheiro nem passaporte
Com destino para França
Sujeito a encontrar a morte

Foi de Nisa que parti
Com os olhos todos molhados
Deixando a minha mulher
Há pouco tempo casados.

A Castelo Branco cheguei
Para o passador encontrar
Daí tomámos o rumo
Para um rio atravessar.

Estivemos no meio de um mato
Uma noite e um dia
Cheio de frio e fome
Com a barriga vazia.

Chegámos a uma terra
Que se chamava Naves Frias
Aí estivemos fechados
Cinco noites e cinco dias.

Éramos catorze homens
Dentro deste palheirão
À espera que nos dessem
Um bocadinho de pão.

Daí seguimos viagem
Cansados mas sorridentes
De catorze já passámos
A ser mais de duzentos.

Quando foi à noitinha
Toda a gente se pôs de pé
Foi esta a maior etapa
Quarenta e quatro horas a pé.

Éramos só dois de Nisa
Tinha um bom companheiro
É um rapaz que se chama
O amigo José Salgueiro.

Ao fim de quarenta e quatro horas
Aí parámos então
Para descansar um pouco
À espera de um camião.

... Chegámos então a França
A um monte fomos parar
À espera do bilhete
Para o comboio apanhar.

Doze dias eu demorei
Para este país encontrar
Não desejo a ninguém
Este sacrifício passar.

Todos estes sofrimentos
Toda esta amargura
Para deixar o país
No tempo da Ditadura.

Só os ricos é que mandavam
Nós nem podíamos falar
Podemos “agradecer”
A um chamado Salazar.

É isto que me dá pena
É isto que me revolta
O autor destes versos
Chama-se, Manuel Comporta.

Sem dinheiro para a viagem
Para pagar ao passador
Foi a minha avó Pelota
Que me fez este favor.

Com isto vou terminar
Manuel Comporta me assino
Para que toda a gente saiba
O que foi um Clandestino!
Manuel Comporta - 6 Março de 1966

* Texto e fotos de Mário Mendes in "Alto Alentejo" -