quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Evocação de Augusto Pinheiro: pintor naif, cidadão de Nisa



Passam hoje, dia 18 de Outubro, dezassete anos sobre a morte de Augusto Dinis Pinheiro, pintor naif, nascido a 22 de Agosto de 1905 na vila de Nisa.
Era comerciante de profissão e começou a pintar aos 66 anos. Participou em 40 exposições colectivas em Portugal e no estrangeiro e realizou 17 individuais.
Aqui e agora, evocamos o homem e o artista – um dos mais consagrados, a nível nacional, na arte naif – lembrando o seu sonho maior, ainda por concretizar: a instalação de um Museu em Nisa, sob o patrocínio da Santa Casa da Misericórdia, instituição onde faleceu e a que doou parte considerável do seu espólio artístico.
Publicamos, a título de homenagem e num momento pleno de oportunidade, as quadras que escreveu para o "Correio de Nisa", em 12/2/1969, em resposta a umas de Maria Pinto publicadas no mesmo jornal sob o título "Nisa tão pobre estás".
É verdade Maria Pinto
Tudo mudou, tristemente
A transformação de Nisa
É mágoa que a gente sente


És tu que dás as notícias
Aos que estão fora da terra
Fazes reviver o passado
Como pintura em aguarela.


Sinto como tu sentes
Que Nisa já não é Nisa
As moças não têm encanto
Sem roupinha nem camisa


Acabaram-se os costumes
Fugiu toda a tradição
Nisa perdeu a graça
Perdeu o estilo e devoção


Tudo passou de moda
Desde o traje à alimentação
As bocas estão tão finas
Que ninguém quer comer cação


O toucinho era prós pobres
A farinheira e a morcela
Agora só comem febra
Fiambre, paio e mortadela.


Feijões pretos era dantes
Páparratos já não se usa,
Ninguém quer papas de milho
Só chouriço da Escusa.


Açorda é prato dos ricos
Por ser comida ligeira
Acabaram-se as criadas
Já não têm cozinheira


Vêrsas já ninguém quer
Só grêlos de couve nabo
Couve flor com molho branco
Vitela e frango córado

Do canádo já ninguém come
Tudo tem louça d´alumínio
Pelo coucho ninguém bebe
Só por copo de vidro fino.

Quebraram-se as caçólas
Casamentos sem afogado
Sandewiches é mais fino
Com vinhos do Porto e abafado

E, sem mais, Maria Pinto
Até Maio se não chover
No dia que for a Nisa
À tua porta vou bater.
Um nisense - 12/2/1969