quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

VIDAS: José Manuel Barreto, um desportista de eleição

Na sua carreira de vinte anos a jogar futebol, só por uma vez viu ser-lhe mostrada a “cartolina” vermelha, num jogo, em Portalegre, com o Desportivo, sendo expulso do campo. Este é o único episódio da sua vida desportiva que recorda com alguma sensação de incomodidade. De resto, o passado futebolístico de José Manuel Barreto, é um registo de memórias que se confundem com a própria história dos tempos áureos do Sport Nisa e Benfica. Deixemos que seja o próprio a contá-la.
Campeão distrital pelo Sport Nisa e Benfica
Como tudo começou
“Nasci em Nisa em 1958 e cresci como tantos outros miúdos. Naquele tempo não havia “escolinhas” como há hoje e as ruas eram os nossos campos de jogos. Lembro-me de jogar à bola no pátio do Nisa e Benfica (quintal), atrás do Celeiro, na Devesa, onde calhava. Disputávamos jogos bem renhidos com a malta da Fonte da Pipa e da Vila, alguns bem durinhos e que, por vezes, havia sempre umas pedradas.
E as “arrelias” não acabavam aqui, pois quando chegávamos a casa ainda ouvíamos ralhar os nossos pais: “ Ah! Malandro, que dás cabo dos sapatos!”
Quando tinha 15 anos, uma direcção do Nisa e Benfica apercebeu-se que havia muitos jovens com qualidade e resolveu inscrever uma equipa no “Distrital”.
Foi assim que comecei a jogar em provas oficiais e nos juvenis.
Ainda me lembro bem do primeiro jogo. Éramos uns “putos”, pouco desenvolvidos e no balneário olhávamos para os do Campomaiorense, nessa altura um clube já com nome e dissemos uns para os outros: “vamos levar três ou quatro, eles são só matulões!”.
Em campo, o que se passou foi o contrário e ganhámos por 7 – 0, com 4 golos do João Temudo e 3 que eu marquei. Como é que foi isso? O nosso jogo era um pouco “à inglesa”, pontapé para a frente, eu e o João corríamos muito e era praticamente uma questão de sprint e marcar.
Conseguimos o 2º lugar no campeonato, um êxito logo na estreia e fomos disputar a Taça Nacional de Juvenis. Depois, a equipa “desfez-se”, alguns colegas foram jogar para outros clubes da região, principalmente o Alter que apostava nos juniores.

Com Néné - Internacional do SL e Benfica
Um jovem entre os adultos
“Eu não quis sair, fui ficando por aqui e com 17 anos estava a integrar a equipa de seniores que acabara de conquistar o título distrital e subira à 3ª divisão nacional (1975).
A primeira vez que joguei foi para a Taça de Portugal, em Portalegre, com o Sport Lisboa e Cartaxo. O prof. Moura saiu, faltavam aí uns 10 minutos para o jogo acabar, quando eu entrei e logo a seguir há um remate à baliza do Cartaxo, o guarda-redes defende, a bola foi ao poste e eu vinha em corrida, a acompanhar a jogada e marquei.
Ganhámos por 1-0 e foi uma loucura, pois tinha ido muita gente de Nisa.
Na eliminatória seguinte fomos jogar a Barcelos com o Gil Vicente, da 1ª Divisão. Eu também fui, como prémio por ter marcado o golo, mas não cheguei a equipar-me. Perdemos, como era natural, dada a diferença das equipas.
No ano seguinte, descemos ao distrital, mas houve alguns jogadores que regressaram como o Parreira, Vitorino, etc. e voltámos a subir à 3ª divisão e a passar à 2ª eliminatória da Taça, desta vez com uma deslocação ao Algarve. Fomos jogar com o Portimonense que tinha jogadores como o Damas, o Norton de Matos, Freitas, todos eles jogadores internacionais, para além de outros. Fomos eliminados e a nível de Taça de Portugal, que disputámos várias vezes, o Nisa e Benfica nunca teve sorte de jogar com um clube da 1ª divisão, já nem falo dos grandes, em “casa”.
Estivemos três épocas consecutivas na 3ª divisão, tínhamos uma equipa muito boa e constituída à base de jogadores de Nisa.”
“Tudo isto embora não houvesse condições e infra-estruturas. Lembro que no primeiro ano da terceira divisão não havia luz no campo e para treinarmos à noite, quando todos tinham disponibilidade, era coma luz dos faróis dos carros dos dirigentes. Não havia água canalizada, tinha que ser fornecida em bidões, faltava um mínimo de condições, mas havia uma vontade de ferro, amor à camisola e não ganhávamos nada.
Também é verdade que não havia discotecas, bares, internetes, outros desportos e isso facilitava a que a malta se juntasse para jogar futebol.”
Mudanças no futebol distrital
“As coisas mudaram com o reforço das equipas e o pagamento a jogadores, a nível distrital. Começou a ser mais difícil constituir equipas e subir de divisão.
Eu mantive-me em Nisa porque tive também a companhia do meu irmão (Toninho Barreto). Ele era defesa e eu avançado. Todo este percurso de dez anos (dos 16 aos 26) foi acompanhado por ele.
Depois de 10 anos consecutivos em Nisa, joguei uma época no Eléctrico (Ponte de Sor), mas era um pouco duro, já que trabalhava no Gavião e treinávamos quase todos os dias, pois o Eléctrico estava na 3ª divisão e tinha já alguns profissionais, o que elevava o grau de exigência. Em Ponte de Sor tive a sorte de defrontar um dos “grandes” do futebol português. Recebemos o Sporting para a Taça de Portugal, com o campo cheio e um espectáculo memorável. Perdemos por 1-2 e eu entrei na 2ª parte.
Depois do Eléctrico passei a representar os Gavionenses (trabalhava no Gavião) durante quatro épocas, uma na 3ª divisão e três no distrital. Tinha 31 anos, queria vir para Nisa e acabar aqui a carreira desportiva, mas os dirigentes do Castelo de Vide há muito que andavam atrás de mim e acabei por representar a AD de Castelo de Vide, uma época na 3ª divisão. Foi a altura, devo dizê-lo, em que ganhei algum dinheiro de jeito no futebol.
Aos 32 anos regressei ao Nisa e Benfica que representei durante mais três épocas, no distrital, acumulando numa das épocas a função de treinador juntamente com o António Veludo. Aos 36 anos, achei que estava na altura de dar o lugar a outros e pôr ponto final numa carreira desportiva de vinte anos, a nível competitivo.”
Recordações do jogo da bola
“Em tantos anos a jogar futebol há muitos momentos de que guardamos recordações. A do jogo com o Cartaxo para a Taça, talvez por ser o da estreia, ou os jogos emocionantes que tivemos em Nisa com o Bombarralense (vitória por 4-3 tendo marcado dois golos), o Rio Maior, que era o guia isolado e perdeu em Nisa pela primeira vez (3-2) ou ainda um célebre jogo com o Benfica de Castelo Branco que precisava de vencer para subir à 2ª divisão. O Campo do Sobreiro teve uma enchente nunca vista e o jogo foi empolgante. Eles tinham uma grande equipa, com jogadores muito experientes como eram o Camolas, o Malta da Silva e outros emprestados pelo SL e Benfica. Mas nós também tínhamos uma equipa muito aguerrida e unida, e “estragámos-lhes” a festa, não deixando que levassem a vitória (1-1).
O futebol e a formação do indivíduo
“O desporto, o futebol, deu-me muita coisa, principalmente muitas amizades. Na minha vida profissional, retenho muitos dos princípios básicos do futebol, o espírito de equipa, o trabalho de grupo.
Dos primeiros anos de jogador ficou uma amizade muito forte e que ainda hoje se mantém com os elementos da equipa de veteranos.
Em muitas terras e locais aonde vou, aparecem pessoas que me falam, cumprimentam e eu não sei quem são. Mas eles lembram-se de mim, talvez por me terem visto jogar.”
“Marcas” que o desporto deixa
“Uma carreira desportiva de 20 anos tinha que deixar algumas marcas. Tive como todos algumas lesões e as mais graves obrigaram mesmo a intervenções cirúrgicas. Fiz duas operações, devido a uma fractura do braço e a uma fractura no joelho.
As pessoas que me viram jogar, podem falar melhor do que eu, mas acho que fui sempre um jogador disciplinado e só uma vez é que fui expulso.
Num jogo com o Desportivo, levei uma cotovelada no maxilar, que me doeu bastante e reagi instantaneamente ao pontapear o jogador que me tinha agredido. Fui expulso, senti-me revoltado, por ter sido agredido e por ter respondido daquela maneira, mas acho que não é nenhum exemplo de que me possa orgulhar.”
Conselhos para as novas gerações
“Que conselhos daria aos mais jovens? Aqueles que tenho dado ao meu filho, incutindo-lhe o prazer de jogar futebol, os valores do espírito de grupo, da camaradagem e de uma vida saudável, sem esquecer o dever da disciplina e o respeito pelos outros, sejam companheiros ou adversários. Para aqueles que sonham em ter uma carreira futebolística, aconselho-os a terem humildade, a trabalhar e que encarem o futebol como uma possível profissão, mas sem nunca desprezarem o aspecto do convívio e da amizade. O futebol é um desporto muito importante, mas não devemos fazer dele um objectivo de “vida e ou de morte”. Pratiquem desporto, joguem com prazer, futebol ou outras modalidades, hoje, felizmente, há muitas mais ofertas do que aquelas que eu tive enquanto jovem.”
O desporto em Nisa, ontem e hoje
“Acho que mudou muita coisa e nem sempre para melhor. Nos anos 70, todas as casas comerciais, consoante as suas possibilidades, ajudavam o clube. Não havia condições nem infra-estruturas, como referi, mas havia uma grande vontade, malta muito unida, uma mística no Nisa e Benfica que fazia com que fossemos respeitados em todo o distrito. Jogava-se por amor à camisola, pelo prazer de jogar e hoje há a expectativa de tirar algum rendimento. O campeonato distrital é reflexo desse mesmo paradoxo: há clubes que têm dinheiro e clubes que fazem das tripas coração para conseguirem chegar ao fim. Há um grande desequilíbrio e assim o futebol não progride.
Sinto que o projecto do futebol juvenil terminou de forma abrupta, sem se acautelarem algumas situações, como a dos jovens que estavam nesses escalões e a quem foram cortadas alguma expectativas.
A nível de infra-estruturas, Nisa continua sem um campo com piso sintético, capaz de cativar os mais jovens. Terras mais pequenas e sem o historial desportivo de Nisa têm esse problema resolvido.”
Se pudesse voltar atrás...
“Todos nós temos um tempo para viver. Eu vivi o meu, enquanto desportista. Não me arrependo em nada por aquilo que fiz pelo Nisa e Benfica e pelo contributo que dei ao futebol e ao desporto. Poderia ter havido outro reconhecimento, mas sinto-me feliz e orgulhoso por tudo o que dei ao futebol e a Nisa e também por aquilo que o futebol me deu.”
Pelo amor à camisola
José Manuel Tremoço Barreto, bancário, 50 anos, casado, dois filhos, vinte anos de jogador de futebol. O resto da sua história de vida, fiel aos princípios por que se bateu ao longo de uma carreira desportiva, que atingiu grande brilhantismo, pouco mais teria que contar. Nasceu em Nisa e para o clube da sua terra contribuiu, não apenas com os golos que marcou, muitos golos, com os pés ou a cabeça, mas como um exemplo, notável, de humildade, disciplina, dedicação ao futebol.
Predicados que fizeram dele e o dos clubes que representou (o Nisa e Benfica em primeiríssimo plano) referências no desporto regional e nacional, numa época em que ser desportista significava, em primeiro lugar, ter amor à camisola, prazer de jogar e competir, arrojo e desafio perante as adversidades.
José Manuel Barreto e tantos outros, são os lídimos representantes dessa escola de desportistas que projectou e fez respeitar o nome de Nisa.
Se mais não fosse, só por isso mereceria, incontestavelmente, o reconhecimento que, aqui e agora, lhe prestamos.
Mário Mendes - in "Jornal de Nisa - nº 255