quarta-feira, 24 de março de 2010

VIDAS: 47 Anos a vender pão


“As grandes superfícies mataram o comércio tradicional”
- Isabel Maria Carita
É uma história de vida dedicada ao comércio que merece ser realçada, a da senhora Isabel Maria Carita, 79 anos, viúva, nada e criada em Nisa.
“Comecei com 20 anos a vender na praça (mercado), ao pé dos Correios. Vendia frutos, batatas, hortaliças, melancias, tudo produtos dos terrenos do Dr. Garcia (Veterinário). Ainda vendi no lugar do senhor João Mendes, no Rossio e quando abriu a Praça (Mercado Municipal) fomos para lá.
Tínhamos uma casinha alugada e nas quintas-feiras e domingos, além das frutas e dos legumes, vendíamos também frangos, coelhos, animais criados na horta e abatidos no Matadouro Municipal. Foi um crime, terem deixado acabar o Matadouro, cá em Nisa.
Quando nasceu a minha filha, a minha mãe, coitada, pouco podia ajudar e então abri aqui a venda com os produtos hortícolas do Dr. Veterinário, umas mercearias e pão, que nessa altura foi autorizado a ser vendido nos comércios.
Parece que foi ontem e já passaram 47 anos, todos os dias a levantar-me às seis da manhã.
Comecei a vender pão do senhor Branco, mais tarde do senhor Virgílio, do senhor Andrade (Fábrica) e do Monte Claro.”
Ganhou a sua própria clientela, uma clientela fiel, desde há muitos anos, a par de outras pessoas que passam na estrada e ali se detém, pela simplicidade da venda e pela simpatia da vendedora, não falando da fama do pão do Monte Claro.
Isabel Carita, como comerciante experiente, não aponta preferências, apenas vai dizendo que o pão do Monte Claro é, talvez, mais procurado, por ser feito (cozido) em forno de lenha.
Discrição, amabilidade e simpatia têm sido as “armas” de Isabel Maria Carita. Nos seus 79 anos de vida e de quase meio século, a contactar com o público, diz nunca ter tido o mais pequeno problema.
A sua casa, loja, venda, na Estrada da Fonte da Pipa é um exemplo de estabelecimento onde o asseio e a arrumação saltam à vista.
Os senhores da UE valorizam pouco, quase nada, estas vendas e locais de convívio, onde o atendimento é pessoal e quase familiar.
O pão do dia ou os bolos que a senhora Isabel vende, são, sempre, um primeiro passo para uma conversa, que ajuda a manter as relações de sã convivência entre uma comunidade.
Aos 79 anos, para a maioria das pessoas, já seria tempo suficiente para “embarcar” na reforma e no descanso. Não pensa assim, Isabel Carita, para quem a sua venda não é, apenas um lugar de negócio, mas um espaço de motivação e de ajuda para se sentir válida no dia a dia, não permitindo que a rotina e o abandono, progressivo, da vida, se instale.
A vontade de manter o seu posto, servindo os seus clientes e amigos, parece ter chegado ao fim, face às exigências da lei. Continuar, significaria a transformação da loja, um vultoso investimento em obras e mobiliário que a sua idade já não aconselha.
“Fico muito triste. São muitos anos nesta vida, a vender pão, a conversar com as pessoas. Levanto-me de manhãzinha bem cedo e começo logo a conversar, a girar para aqui e ali. E agora?”
E, agora, senhora Isabel? O que dirão centenas, talvez, milhares de pessoas com situação semelhante à sua?
A CEE, a UE ou lá o raio que é, parece importar-se pouco com a destruição do frágil tecido comercial e industrial das aldeias e vilas.
Importante, mesmo, são as “normas”, as imposições, o pão, o queijo, os produtos “bacteriologicamente puros”, sabendo a coisa nenhuma.
Importante para os tecnocratas que nos (des)governam é o invólucro, a embalagem.
Mário Mendes in "Jornal de Nisa" - nº 245 - 19 Dez.07

IN MEMORIAN: João da Graça Neto

Um polícia exemplar
João da Graça Neto, natural de Nisa, era um cidadão íntegro, pessoa simples e humilde, sempre disponível para ajudar aqueles que solicitavam a sua ajuda, um polícia exemplar que serviu a causa da segurança pública em quase 30 anos de serviço na PSP e que viu reconhecido o seu esforço e dedicação em defesa dos cidadãos e dos seus direitos constitucionais.
Figura popular em Nisa e muito conhecido em Portalegre, cidade onde viveu grande parte da sua não muito longa existência, João Neto viria a falecer de uma forma abrupta e inesperada, deixando em todos aqueles que com ele conviviam e o admiravam uma grande dor e saudade.
Morreu um cidadão e um polícia bom. Curvemo-nos perante a sua memória!
Breve Currículo
• Alistado em 13-09-1973 na EPP / ESP: PSP de Lisboa.
• Curso de formação de guardas em 14-12-1973 com nota final de 15,107 valores.
• Situação militar – foi soldado do CR e Mobilização nº1 e passou à disponibilidade em 28-11-1972.
• Guarda provisório em 13-09-1973
• Guarda 1ª classe em 9-04.1986
• Agente Principal em 13-10-2000
• Passou pelos comandos de Polícia de Lisboa, Oeiras e Portalegre.
• Medalha de Cobre de Comportamento Exemplar em 10-03-1982
• Medalha de Prata de Comportamento Exemplar em 10-11-1989
• Medalha de Ouro de Comportamento Exemplar em 15-07-1999
• Medalha de Assiduidade de 1 Estrela em 10-12-1984
• Medalha de Assiduidade de 2 Estrelas em 25-05-1994
• Louvor: Prémio de Segurança Pública em 26-06-1989
• Passou à reforma no ano de 2001.
In Jornal de Nisa” Agosto de 2008

VIDAS: Henrique Fortunato

"A minha vida dava um filme"
Jogou à bola, lembra os jogos entre Nisa e Alpalhão e as antigas rivalidades entre as duas vilas do concelho. Os bons ou maus momentos futebolísticos do "seu" Sporting dá-lhe pano para mangas para as conversas com os clientes, entre o vai e vem do pente e da tesoura. No corte da barba, é melhor esse tipo de conversas ficar de fora, "não vá o diabo tecê-las". É a gente a falar. Barbeiro há 56 anos, conversador nato e com uma risada a terminar cada frase, é assim Henrique Martins Fortunato, um homem pacífico e uma das figuras populares de Alpalhão. Com um sorriso de orelha a orelha, contou-nos um pouco da sua vida e profissão.
"Não tenho muito para contar, ou, então, se fosse a contar todas as peripécias da minha vida, dava para fazer um grande filme. Sou barbeiro há 56 anos e estou aqui nesta casa desde 1955, há 50 anos. A taberna abriu um pouco mais tarde, há 43 anos, tem sido esta a minha vida, vai dando para me governar".
Dado o mote para a conversa, Henrique Fortunato conta-nos como foi o começo da sua actividade como barbeiro.
"Aprendi a arte de barbeiro com o ti Fernando Bate-Certo e tinha que bater certo, não é verdade? Comecei a aprender com 13 anos e assim andei até ir tirar sortes, sem ganhar um tostão. Depois de acabada a tropa é que abri o estabelecimento aqui na rua do Castelo."
Clientela é coisa que parece não faltar a este barbeiro alpalhoense, que nos diz ter muitos clientes que "vêm de Nisa, Tolosa, Gáfete, Alagoa, Castelo de Vide, Póvoa e Meadas e até de Portalegre, sem contar com as pessoas de Alpalhão".
São clientes de muitos anos, "a maioria com mais de 40 anos de idade, mas também aparecem alguns jovens, porque há poucos barbeiros".
Henrique Fortunato diz gostar da sua profissão e daquilo que faz. Já foi presidente da Junta de Freguesia, mas durante pouco tempo.
"É um cargo que só dá chatices e eu não tinha feitio para me indispôr com ninguém. Assim resolvi pedir a demissão e dedicar-me àquilo que tenho feito sempre. Sempre gostei disto e de aprender, quando vou a algum lado reparo sempre como fazem as coisas. Numa ocasião, em Lisboa, vi uma senhora a cortar cabelo e que bem que ela cortava. Desde que se aprenda e queira fazer as coisas com perfeição, é uma profissão como outra qualquer. Só não percebo porque é que há cada vez menos gente a querer ser barbeiro".
Para além da barbearia e do atendimento na taberna, Henrique Fortunato tem outras "ocupações", uma delas, a da caça, que já não pratica com a intensidade de outros tempos.
"Fui caçador durante muitos anos. Agora, as pernas já não puxam muito. Sou o sócio mais velho da reserva de Alpalhão. Sempre gostei de actividade física, para além do futebol, gostava muito de jogar chinquilho".
Sportinguista dos quatro costados, o futebol é tema recorrente de muitas conversas, seja a nível nacional ou no plano local.
"Foi uma pena acabarem com o futebol em Alpalhão. As pessoas daqui gostam muito de desporto. Noutros tempos não "havia pai" para o ciclismo e tínhamos aí bons corredores. Aos domingos o povo gostava de ir ver a bola, divertíamo-nos um bocadinho e o Alpalhão chegou a estar na 3ª divisão. Agora parece que há aí uma malta que vai pôr o futebol outra vez em funcionamento".
Henrique não é só adepto do futebol. Foi jogador e não esquece os jogos intensos, vibrantes, nas décadas de 50 e 60. Com um sorriso rasgado, põe a memória a viajar e lembra a rivalidade com os vizinhos de Nisa.
"Eram grandes jogos, com muita gente a assistir. Jogava-se por amor à camisola, não havia prémios de jogo nem nada disso. Ainda joguei contra o Fatan. Uma vez estávamos a ganhar 2 - 0 e fomos perder 2 - 8. Joguei também contra o Vilela e lembro-me bem, o Vilela não me ganhava uma bola".
Recordações de quem deixou para trás mais de cinquenta anos entre barbas e cabelos, pentes e tesouras, sucessos e desilusões do "seu" Sporting e que agora só pensa em manter a saúde, sem dúvida a maior riqueza para um Henrique que, para além de barbeiro, tem uma Fortuna(to). Apenas no nome e na alegria que espalha, tá bom de ver.
Mário Mendes in “Jornal de Nisa” – Março de 2008

IN MEMORIAN: Figura popular de Nisa

Saudade
(Em memória de Adolfo da Graça Costa Moura)

Um ano após outro ano, o tempo andando
por nós irá passando, sem cessar...
nos corpos sua marca vai deixando...
nas mentes, a saudade irá gravar!

De ti, Adolfo amigo que partiste,
nos lembraremos sempre com ternura,
e, ao Céu, onde sem dúvida subiste,
tua Alma irá levar tua candura.

Outros daqui partiram também já
e, a pouco e pouco todos nós iremos.
Seus nomes para Sempre lembraremos...

E s´a Vida p´ra nós madrasta for...
ano após ano Quem ficar por cá,
que nos lembre também sem mágoa e dor!...

Vale dos Cardos, Agosto de 2004
Afonso Zagalo Neves