quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

AMBIENTE: O centenário dos plátanos da Alameda

Numa época em que o administrador do concelho, vulgo presidente do órgão Câmara Municipal, a pretexto de obras de requalificação, manda abater árvores com algumas dezenas de anos (Boqueirão, Cevadeira e Devesa) urge lembrar aqui aqueles que há 100 anos e em plena Monarquia, tiveram vistas largas e mandaram plantar os plátanos do Rossio. Lembrança e homenagem ao Dr. Mário Augusto de Miranda Monteiro, presidente da Câmara e deputado da Nação, com o nome perpetuado numa das ruas da vila, o antigo Canto do Adrião.
Os plátanos do Rossio (actual Praça da República) foram plantados há 100 anos e para que não restem dúvidas, os documentos aqui se transcrevem. Para que conste e se lembre o inalienável dever de preservar o património que é de todos. (Será?)
ARBORIZAÇÃO DO ROSSIO (I)
- Carta ao Director das Obras Públicas deste Distrito
Pretendendo esta Camara proceder à arborização de parte do Rossio desta villa, rogo a Vª Exª se digne dizer-me se nos viveiros, a cargo da direcção das Obras Públicas deste distrito, existem plantas que possam ser fornecidas para tal fim. No caso afirmativo, peço a Vª Exª se digne indicar-me as especies de arvores disponiveis, seus preços e locaes onde ellas se acham.
Deus guarde a Vª Exª. / Niza,10 de Dezembro de 1909
O presidente da Camara: Mário Miranda Monteiro
ARBORIZAÇÃO DO ROSSIO (II)
- Ao Director das Obras Públicas do distrito de Portalegre
Esta Camara está procedendo à plantação de arvores no Rocio desta villa, junto da estrada que, do Tejo conduz a Alpalhão na qual se acham arvores caducas, que convém serem substituidas por outras eguaes às que no terreno municipal se estão plantando do que resultará o aformoseamento não só do largo como da estrada. Neste intuito pois, peço a Vª.Exª em nome desta Camara a precisa auctorização para a substituição das arvores a que alludo, com a maxima brevidade possivel, visto que as arvores a plantar vieram de fora, ha já alguns dias e podem inutilizar-se com a demora da plantação. É este um melhoramento local inadiavel e para a realização do mesmo de muito servirá o apoio que esta municipalidade espera encontrar em Vª Exª.
Deus guarde Vª Exª. / Niza, 7 de Março de 1910
O presidente da Camara: Mário Miranda Monteiro

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

MEMÓRIA - Marco da cultura popular no concelho

O Rancho Típico das Cantarinhas nasceu em 1964
Em 1964, as marchas populares em Nisa, estiveram na génese da criação de um grupo musical e etnográfico que, por muitos e bons anos, levaria bem alto e bem longe, o nome desta "terra bordada de encantos": o Rancho Típico das Cantarinhas de Nisa.
O seu principal obreiro e dinamizador foi Rodrigues Correia, um nortenho, artista amador de teatro, chegado há pouco tempo ao Alentejo.
As Maneirinhas (O início do Rancho)
"Nas marchas de Santo António, véspera da Feira das Cerejas, o ti Dionísio Calhabré e a senhora Teodolinda começaram as cantar as marchas", recorda Maria Dinis Pereira.
"Ela cantava e o ti Dionísio tocava o banjo. Deu-se em juntar muita gente. O senhor Rodrigues Correia, que estava em Nisa há pouco tempo e morava na Rua Direita, ouvi-os e juntou os gaiatos que por ali havia e começou a marchar com eles. O Rancho, a bem dizer, começou com uma marcha. Divulgou-se esta iniciativa e começaram a vir crianças de vários sítios da vila. Aí ele pensou em fazer uma marcha. Com a "Nisa Velhinha" e "A Porta da Vila", que são marchas, é assim que começa o Rancho."
Dinis Pereira ainda se lembra de, na véspera da Feira, à noite, os gaiatos andarem a marchar pelo recinto da feira e de o ti Fantocha, que tinha um botequim, começar a dar massa frita e pirolitos aos miúdos.
Por ocasião da inauguração da Casa do Povo de Nisa, Rodrigues Correia lembra-se de se apresentar com os miúdos trajados a rigor, no acto solene, presidido pelo ministro Gonçalves Proença. No início, o Rancho chamava-se Rancho Infantil de Nossa Senhora da Graça e manteve este nome quando apareceu o das Cantarinhas. Foi uma grande apresentação e a partir daqui as bases da criação do Rancho adulto estavam lançadas.
"No início não havia músicas, nem letras e muito menos recolha de modas tradicionais", explica Maria Dinis.
"O vizinho Luís Félix encarregou-se de fazer as músicas e ao Dr. Gomes Correia ficou a incumbência das letras. Foi assim que nasceram "As maneirinhas", Passinhos da Fonte da Pipa", "Bailarico da Senhora da Graça" , "As brincadeiras da Devesa" e "A moda dos estralos (popular/antiga)".
Com a memória bem "fresca" Maria Dinis não resiste a contar um episódio que esteve na origem da criação de mais uma moda.
" O senhor Rodrigues Correia viu que as moças escorregavam no sobrado e lembrou-se de pedir aos seus colaboradores ( Luís Félix e Gomes Correia) para lhe fazerem uma música em que dançassem descalços. É assim que nasce o estribilho, muito conhecido de: "Ai, ai eu de Nisa sou / Sapatos não tenho, ao balho (baile) não vou".
Outra curiosidade, residia na florinha que ornamentava os sapatos das raparigas.
"Os sapatos tinham uns pompons, umas bolinhas de lã, porque cá em Nisa dizia-se que quando as cachopas calçavam umas galochas, que era do mais barato que havia, as mães punham-lhe essa bolinha para dar mais graça e importância aos sapatos. No Rancho usavam- se as bolinhas vermelhas porque destacava no sapato preto e combinava com a cinta do traje masculino."
Artigo publicado no "Jornal de Nisa" - 1ª série - nº 

domingo, 22 de janeiro de 2012

À FLOR DA PELE - Adeus, até ao meu regresso...

Menina dos olhos tristes
O que tanto a faz chorar
O soldadinho não volta
Do outro lado do mar (1)
Onde se fala do annus horribillis do salazarismo, do início da guerra colonial, da queda de Goa, Damão e Diu, do princípio da derrocada do Império Colonial Português, da dor e das lágrimas de uma mãe de Tolosa, sem dinheiro para pagar a “caixa de pinho” e trazer de volta, o filho morto em combate...
23 de Janeiro de 1961. Foi há 50 anos e ainda me lembro do rádio a pilhas, em cima da secretária, na sala de aula do 1º andar da Escola do Rossio. O professor, meu primo António da Piedade Pires, ligava-o a espaços para ouvirmos a “aventura” em forma de novela radiofónica do assalto ao Santa Maria. O ano começava mal para o regime salazarista e num país onde só era permitida uma ideologia política, onde não se podia discutir, sequer, o “sexo dos anjos”, aquelas doses maciças de apologia nacionalista e de constantes alusões aos “traidores da pátria” comandados por Henrique Galvão calaram bem fundo em cada um de nós.
Naquela altura estaria longe de supor que, dez anos mais tarde, iria conhecer em terra de balantas, fulas e mandingas, as profundas contradições e mentiras de um regime, isolado do mundo e da realidade.
A 4 de Fevereiro de 1961 guerrilheiros do MPLA tomam de assalto a prisão e a emissora de Luanda, no mesmo dia em que termina a aventura de Henrique Galvão e seus companheiros com a entrega do “Santa Maria” às autoridades brasileiras e recebendo asilo político.
Estalara a guerra colonial e os massacres de colonos angolanos enchem de horror e de revolta, os écrans a preto e branco do único canal televisivo. Uma guerra que se haveria de se estender a Guiné e Moçambique, perante a recusa de Salazar em aceitar uma solução negociada, pacífica, para a autodeterminação dos territórios ultramarinos.
Botelho Moniz tenta ainda, num golpe de Estado, apear Salazar do poder, mas a intentona é sufocada e a resposta do homem de Santa Comba Dão fica expressa na célebre frase: “Para Angola, rapidamente e em força”. Logo a seguir viria o “Angola é nossa!”.
Catorze anos de guerra, de devastação, de milhares de mortos e feridos, de fome e miséria, que deixaram um território rico em recursos naturais, dividido e arrasado, mostraram que Angola não era nossa, nem será, tão pouco, dos angolanos... Mas esta é outra história a ser escrita no tempo próprio.
A 18 de Dezembro de 1961 novo golpe nas aspirações imperiais do ditador de Santa Comba: a União Indiana invade e anexa quase sem resistência, os territórios de Goa, Damão e Diu.
Começa a derrocada do Império Colonial Português, um “império” que, perante os ventos de mudança que assolaram o mundo após a 2ª Guerra Mundial, e os exemplos de outras ex-potências coloniais, estava condenado a seguir os mesmos caminhos da autodeterminação e da independência. Salazar, orgulhosamente só, criticado pela comunidade internacional e pela própria igreja católica não cedeu. Arrastou, na sua cegueira, o país para uma longa guerra injusta, onde as palavras “derrota” e “rendição” eram proibidas. “Apenas pode haver soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos”, disse, um dia, num discurso inflamado. Vassalo e Silva não lhe fez a vontade, quis viver e salvar os seus homens de uma morte certa e inglória, como, anos mais tarde, em 1973, em Guileje, na Guiné, o major Coutinho Lima tomou a mesma atitude, num aquartelamento flagelado durante cinco dias e despojado de tudo, até de armas e munições.
Conheci-o, pessoalmente, no Depósito dos Adidos, como um soldado raso, sem galões, triste e amargurado, mas orgulhoso da atitude tomada. Nesse ano (1973) a PIDE assassinara Amílcar Cabral, a guerra tomara proporções que o exército português nem sonhara. O PAIGC dispunha, agora, de supremacia em termos de armamento. Avião ou avioneta que descolasse era aeronave abatida. Os mísseis terra-ar faziam estragos incalculáveis, a mobilidade da guerrilha com uma nova estratégia deixava os comandos militares sem saber o que fazer.
Temia-se o pior. A ilha de Bissau começa a ser cercada com arame farpado. A cidade transformara-se numa nova Saigão e o que acontecesse teria de ser decisivo. Foi. O “Movimento dos Capitães” desencadeou o 25 de Abril e o término da guerra.
A solução política, tantas vezes proposta pelos líderes africanos (Neto, Mondlane, Cabral) a Salazar acabara por silenciar e resolver o que as armas não conseguiram.
História de uma mãe e de um caixão de pinho
O concelho de Nisa também sentiu na dor e no luto, na partida e na ausência, o drama da guerra colonial. Algumas famílias não mais voltaram a ver os seus filhos e entes queridos, que neste texto homenageamos.
Particularmente atingida pelo infortúnio e pelas vítimas da guerra foi a povoação de Tolosa.
O que talvez muitos não saibam, foi a partir de uma carta pungente e comovedora, de uma mãe desta localidade, Maria Florinda da Luz, dirigida ao Ministro da Defesa que se começou a fazer justiça aos militares mortos na defesa dos territórios ultramarinos.
O Estado mandava os soldados para a guerra, mas só pagava a ida e o regresso dos militares vivos: não se responsabilizava pela trasladação dos mortos.
Se tivessem dinheiro, as famílias teriam que pagar se quisessem os seus mortos de volta: pagavam o caixão de chumbo, a embalagem da urna, a certidão do registo de óbito, o transporte de Lisboa para o cemitério de destino.
As famílias eram informadas da morte através de telegrama que geralmente acabava assim: “Informo Estado custeia remoção de ossadas passados cinco anos /Trasladação possível agora deseje despesa sua custa /Necessário depositar dez mil escudos Depósito Geral adidos Lisboa ou outra unidade/ caso assim não proceda trasladação impossível”.
Os portugueses eram “carne para canhão”, combatiam numa guerra de que não conheciam os contornos e por fim, quem os envolvia em tamanha aventura bélica nem sequer se preocupava em garantir que os entes queridos pudessem, em caso de morte, fazer-lhes as derradeiras homenagens de despedida. Levavam-lhes os filhos, os maridos, os noivos; roubavam-lhes anos de vida da sua juventude e, se a morte viesse, o direito ao luto, à dignidade de uma homenagem fúnebre teria de ser “cobrada” com dez contos.
Nos anos 60, dez contos eram uma fortuna. Vivia-se de magros salários, a população rural e não rural não dispunha de tal quantia. Maria Florinda da Luz, mãe do soldado Francisco da Luz Carloto, morto em combate no Norte de Moçambique, em 19 de Janeiro de 1967 não se conformou com a resposta. Escreveu ao Ministro da Defesa uma carta pungente:
“Venho com esta minha triste carta pedir a Vª Exª, Senhor Ministro da Defesa, que me explique duas palavras do meu querido filho, que a dor é tão grande que não sei aonde hei-de perguntar informações do meu queridinho filho? Lembrei-me de Vª Exª de me poder dizer alguma coisa. Um filho tão bom que alegrava o meu lar tão triste, e alegrava o meu coração. E agora grito à procura do meu triste filho sem saber aonde está e como foi a morte dele.
"Pedia a Vª Exª pela sua saúde, já que não tive a sorte de trazerem o meu filho vivo, peço-lhe que mo mandem mesmo morto. Para eu o adorar e rezar ao pé daquele bom querido filho.
Peço imensa desculpa a Vª Exª destas minhas tristes palavras, mas a dor é tão grande que não sei aonde hei-de respirar. O nome do filho é Francisco da Luz Carloto”.
A carta de Maria Florinda da Luz chegou ao secretário de Estado da Defesa, general Venâncio Deslandes que por sua vez enviou um ofício ao Estado-Maior do Exército sobre este grave problema. A partir de 2 de Março de 1967 com a publicação do Regulamento de Trasladações, o Estado passou a assegurar o regresso dos militares mortos na Guerra Colonial. (2)
A lua que é viajante
é que nos pode informar
o soldadinho já volta
está mesmo quase a chegar
Vem numa caixa de pinho
do outro lado do mar
desta vez o soldadinho
nunca mais se faz ao mar (1)
NOTAS
1 – Menina dos olhos tristes – letra de Reinaldo Ferreira; Música de Zeca Afonso 

2 – As grandes operações da Guerra Colonial 1961-1974 – Presselivre, Imprensa Livre SA
Mário Mendes in "Alto Alentejo" -  Dez.2012

sábado, 21 de janeiro de 2012

NO RASTO DA MEMÓRIA (1) - Vias de Comunicação

A estrada Crato-Vila Velha de Ródão numa interpelação parlamentar
A melhoria das vias de comunicação, estiveram sempre na primeira linha das preocupações, como principal motor do desenvolvimento regional. Em 8 de Fevereiro de 1867 e segundo o Diário da Sessões da Câmara dos Deputados, o representante do círculo eleitoral de Nisa, António Diniz Vieira, interpelou o Ministro das Obras Públicas sobre os atrasos da construção da estrada Crato -Vila Velha de Ródão.O texto aqui fica, respeitando a ortografia da época.
"O sr. Diniz Vieira: — Mando para a mesa uma nota de interpellação, que, dirijo ao sr. ministro das obras publicas, nos termos seguintes (leu). Como v. ex.a vê, esta interpellação diz respeito a um assumpto, de que já na sessão passada aqui tratei.                                                                                         A estrada de que pretendo falar na interpellação é conhecidamente da maior necessidade, não só pela junta geral do districto, pelos relatórios dos respectivos governadores civis, como pelo sr. ministro das obras publicas, quando, na sua portaria de agosto ultimo, declarou que na província do Alemtejo era de summa urgência; porque era a única que communicava às duas províncias, Beira Baixa e Alemtejo.                                                                                                                                                      Apesar de tão reconhecida ser a necessidade d'ella, o facto é que, tendo o reconhecimento sido feito em 1864, e ultimado, desde então até agora pode-se dizer que nada se tem feito alem do estudo; e digo quasi, porque no anno passado pude conseguir do sr. conde de Castro a approvação no conselho das obras publicas do primeiro lanço da mesma estrada, na extensão pouco mais de uma légua, pois tanta é a distancia da estação do Crato a Villa Velha do Ródão. Sendo pois a extensão total da estrada de 44 kilometros, o que ha feito é apenas uma oitava parte, onde se trabalha; no restante continuam os estudos, mas estudos que vem, que se devolvem, que tornam a vir e tornam a devolver-se. E tão malfadada aquella estrada que não pode passar de estudos.                                          Portanto peço que das palavras e dos estudos se passe a obras; e é sobre isto que eu desejava chamar a attenção do sr. ministro das obras publicas.                                                                                       N'esta estrada ha uma grande porção que effectivamente pôde passar sem obras, mas ha uma outra, qual é a que vae do alto da ribeira de Niza á ponte do Tejo, onde não é possível transitar nem a cavallo nem a pé.                                                                                                                                                       Sinto muito que o sr. ministro não esteja presente, mas peço a v. ex.a que o previna, a fim de se dar por habilitado para poder verificar a minha interpellação.                                                                                8/2/1867 – Pág, 364

domingo, 18 de dezembro de 2011

TRADIÇÕES: RENDEIRAS DE NIZA *

Nos confins do Alto Alentejo, encontra-se, localizada em Niza, uma antiga e curiosa indústria – a das rendas.É interessante ver as rendeiras, sentadas em tripeças, junto das portas, vestidas com os trajos característicos – saias escuras com barras claras, roupinhas de pano, lenço traçado sobre o peito, e mantilha curta na cabeça ou o clássico chapéu nizense; adornadas com gargantilhas e fios de ouro, onde predominam os antigos hábitos de Christo, de ouro esmaltado.Umas, com o rebolo sobre os joelhos, vão fazendo as rendas de colchete, qual delas a mais complicada, ou desfiando no alvo pano de linho os entremeios tão caprichosos, produtos de extrema paciência; outras fazem rendas de agulha, que servem as mais das vezes para colchas que levam anos a compor e que passam gerações guardadas nos arcazes, servindo somente em dias festivos de bodas ou batizados.
A indústria de rendas de Niza – até há pouco restringida quasi ao uso local, - tem ultimamente exportado muitos e belos exemplares, notando-se por isso um certo desenvolvimento no labor das rendeiras, que oxalá não abandonem os modelos e desenhos que ainda seguem e imprimem às suas rendas um carácter acentuadamente regional.
NOTAS: Na fig. 1 estão representadas duas rendeiras trabalhando à porta de casa nas rendas de rebolo, o mesmo sucedendo na fig. 3, onde essas rendeiras são acompanhadas por outra mulher que desfia um entremeio. Na fig. 2, das três mulheres, tipicamente vestidas, a do meio trabalha em renda de agulha.
Luís Keil
* Este texto de Luís Keil deve remontar ao início dos anos 40 do século passado quando o autor elaborou o Inventário Artístico de Portugal (Distrito de Portalegre -1943)
Publicado no semanário "Alto Alentejo" - 3.8.2011

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

À FLOR DA PELE: José Francisco Figueiredo

Retrato de um professor e de um cidadão
Não conheci o professor José Francisco Figueiredo. Quando faleceu, a 27 de Agosto de 1951, eu tinha pouco mais de quatro meses de vida, mas não esqueço a influência que ao longo de muitos anos viria a exercer sobre mim, desde logo quando, dez anos mais tarde, recebi como prémio escolar a sua “Monografia da Notável Vila de Nisa”, oferecida pelo “Exmo Senhor Doutor João António da Silva Caldeira”, sendo director da Escola, António Paralta de Figueiredo, filho do prof. José Francisco Figueiredo.
O registo que segue é uma evocação e homenagem a um homem bom de Nisa, rigoroso e metódico professor, defensor do Estado Novo e da moral cristã, mas, acima de tudo, um bairrista, talvez o maior e mais dinâmico promotor da “pátria nizorra” e do Alentejo no século passado.
O professor
José Francisco Figueiredo nasceu em Nisa, na Praça do Município, a 10 de Junho de 1884. Foram seus pais, José da Cruz Figueiredo e Josefa Tomásia Caldeira.
Entrou para a Escola Primária no Rossio, tendo como professor o Padre José Ribeirinho.
Fez a preparação para o Seminário e a instrução secundária, tendo ingressado no curso teológico que concluiu em 1902, no Seminário Diocesano, ao mesmo tempo que, com 18 anos, era diplomado pela Escola Normal de Portalegre.
José Francisco Figueiredo, aluno brilhante, não seguiu a carreira eclesiástica que se lhe augurara ao reconhecer que trilhara caminhos de vocação diferente da sua.
Em Nisa, ainda hoje, há que garanta que tal se ficou a dever ao facto de, numa das raras visitas à terra se ter enamorado da mulher com quem viria a casar. Verdade ou não, José Francisco afastou-se dos degraus do altar, mantendo um fundo sentimento religioso e inexcedível fervor. Nisa perdeu um padre e ganhou um professor. E que professor...
Começa a leccionar na vila em 1903, em cursos particulares das disciplinas de preparação dos Seminários e dos dois primeiros anos do liceu. De 1908 a 1911 desempenha o lugar de ajudante de professor na Escola do Rossio, do qual foi nomeado efectivo em 13 de Setembro de 1913.
Em Março desse ano é escolhido por ocasião da Festa da Árvore para proferir o discurso laudatório, sendo na ocasião editado um opúsculo “ O Culto da Árvore” que a Câmara de Nisa recentemente reeditou.
Ao ensino na Escola do Rossio, seguiam-se as lições no “laboratório”, designação para o espaço da casa na Rua da Fonte, onde vivia com a esposa Maria da Graça Paralta Figueiredo e os dois filhos Lucília e António, ainda crianças.
Era aí no “laboratório” que o esperavam, todos os dias, os alunos que o Mestre preparava para o exame ao liceu.
“Não lhe bastava ensinar – escreve João António da Silva Caldeira, autor da revisão e prefácio da “Monografia da Notável Vila de Nisa – queria que os alunos soubessem e para isso possuía e promovia, calorosamente, o gosto e o culto da perfeição”.
José Francisco Figueiredo foi professor na instrução primária de gerações de meio século e na secundária das de alguns lustros, tendo sido “mestre por vocação e devoção, por meditação e acção e por ciência e consciência”. (1)
Do curso particular que manteve durante vários anos, disse um dia que lhe “ficou a consolação de ter contribuído para alicerçar vigorosamente mentalidades que muito se têm notabilizado nos vários ramos da actividade social”.
Director da Escola Dr. Graça (Escola do Rossio) de 1923 a 1933, dinâmico e carinhoso protector da Caixa Escolar que garantia apoio aos alunos mais pobres, José Francisco Figueiredo é nomeado a 7 de Maio de 1929 como Inspector da Região Escolar de Portalegre, lugar que não manteve e a 13 de Junho de 1934 é nomeado delegado da Inspecção Escolar, funções com que terminou a sua carreira profissional em 1945.
Em 10 de Junho de 1950, em cerimónia realizada na Sociedade de Geografia de Lisboa e presidida pelo Chefe do Estado é-lhe atribuída a insígnia de Cavaleiro da Ordem de Instrução Pública, sendo escolhido, entre os agraciados para proferir o discurso de agradecimento colectivo.
Jornalista e cidadão interveniente
José Francisco Figueiredo não foi apenas um ilustre professor. A poucos nisenses, no século passado se lhe podem reconhecer o mérito de ter pugnado com tanta persistência e denodo pelo progresso da sua terra. Desde 1911 e até à doença que o viria vitimar, nunca o Mestre deixou de escrever e reclamar para Nisa a criação de infra-estruturas e o desenvolvimento de que carecia.
Publicou centenas de artigos, quer em jornais de âmbito nacional como o “Diário de Notícias” ou “O Século”, quer de cariz regional desde “O Distrito de Portalegre”, “Brados do Alentejo”, Correio de Nisa”, entre tantos outros.
Artigos que tinham um traço comum: a elevação de Nisa e do concelho, das suas gentes, e nos quais apresentava sugestões ou formulava protestos, pedindo a justiça que era devida.
Problemas como as instalações dos Correios, a tentativa (1933) de desmembramento do concelho com o projecto de anexação de Amieira ao do Gavião, a construção do Teatro Novo, a instalação de uma Biblioteca Pública e do Museu Regional, ou a implantação da rede de águas de abastecimento público, mereceram as suas críticas ou louvores, numa escrita escorreita e cristalina.
A defesa do património e a preservação dos usos e costumes da “Corte das Areias” estiveram também no centro das suas atenções. Alentejano e alentejanista, deixou brilhante colaboração nas páginas do “Almanaque Alentejano” e da “Revista Alentejana” da Casa do Alentejo.
Escreveu diversos artigos sobre as tradições de Nisa, desde o casamento aos modos de vestir (traje) em textos publicados na “Etnografia Portuguesa” sob a direcção de Leite de Vasconcelos.
Não se ficou por aqui a acção de José Francisco Figueiredo em prol da sua terra.
No campo social desempenhou funções na gerência da Misericórdia em 1911, 1915 e 1940, nestes dois últimos anos como Provedor.
Foi um cuidadoso bibliotecário do Clube Nisense, tendo enriquecido a modesta biblioteca com obras literárias obtidas através de pedidos aos sócios.
Elaborou os estatutos da Sociedade Artística Nisense; propôs e viu concretizada a erecção de um busto no jardim público de Nisa, em memória do médico Dr. Francisco Miguéns, inaugurado a 27 de Maio de 1945, tendo redigido e editado o opúsculo “O Monumento”, discurso proferido no acto solene e evocativo.
A Monografia de Nisa
O amor ao chão pátrio levou-o a escrever a “Monografia da Notável Vila de Nisa”, sequência de um trabalho original que em 1943 apresentou num concurso público promovido pelo SNI na Figueira da Foz. O trabalho com o nome de “Breve Monografia da Notável Vila de Nisa” viria a ser premiado e estimulou o insigne Mestre para escrever uma obra de maior envergadura que, de alguma forma, estabelecesse uma ponte e eliminasse o hiato decorrido desde a edição da “Memória Histórica “ de Motta e Moura (1877).
Esta foi a tarefa derradeira a que o Mestre meteu ombros e que, por sua infelicidade, já não veria publicada em letra de imprensa.
A “Monografia da Notável Vila de Nisa”, de José Francisco Figueiredo, com 482 páginas distribuídas por 15 capítulos viria a ser editada em 1956, cinco anos após a morte do seu autor, com lançamento público no dia 16 de Setembro de 1956, data em que lhe foi feita pública evocação com o descerramento de uma placa de romagem no jazigo do cemitério de Nisa onde repousam os seus restos mortais e com uma sessão solene no Cine-Teatro.
A questão política e a questão religiosa
A “Monografia da Notável Vila de Nisa” é uma obra que prestigia e enobrece a memória do seu autor e um tratado de referências históricas, sociais, económicas, culturais e até políticas que nenhum nisense ou estudioso pode ignorar.
Não será o retrato perfeito de uma determinada época. É uma visão do autor, num período histórico em que as liberdades de expressão e opinião estavam cerceadas.
Não se podia criticar o regime, nem tão pouco afrontá-lo, ao de leve, mesmo a nível local.
José Francisco Figueiredo, cidadão impoluto, conservador e católico, ousou enfrentar um presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Nisa, militar de carreira, servidor da Dictadura, o tenente António Falcão.
Descontente e indignado com algumas decisões que feriam e desrespeitavam conterrâneos seus, nomeadamente, médicos e farmacêuticos, o professor José Francisco assinou várias petições endereçadas ao Governo Civil de Portalegre, na altura liderado por outra figura militar, o capitão Vaz Monteiro, nas quais denunciava várias situações.
Tanto bastou para que fosse considerado “persona non grata” pelo tenente Falcão que, em desespero de causa, lhe exigiu, publicamente, a entrega de 7.257 escudos referentes à arrematação dos bens de D. Rosa Maria Mousinho, legados à Escola de Nisa e que estavam sob administração do professor José Francisco Figueiredo, por delegação da anterior Comissão Administrativa da Câmara, presidida pelo Dr. Francisco Mourato Peliquito.
Em 22 de Janeiro de 1931, na reunião da Comissão Administrativa (2), que integrava António Joaquim Fraústo, presidente, Júlio Mourato Grave e João da Cruz Carita (Canhoto), vogais, foram aprovadas “as contas apresentadas pelo prof. José Francisco Figueiredo, respeitando ao legado de Dona Rosa Maria Mousinho achando-as conforme, verificando com prazer que a administração do mesmo legado foi honesta”.
O tenente Falcão faltou, alegando doença. Não se conhece decisão posterior da Comissão Administrativa ou diligência do seu presidente, a formular qualquer pedido de desculpas e a repor a verdade dos factos. A Dictadura era mesmo...dura.
Católico convicto e fervoroso, José Francisco Figueiredo não temia a verdade, quando se tratava do bem supremo de Nisa. Por diversas vezes, em escritos dispersos ou na sua “Monografia” defendeu a manutenção da administração das ermidas da Senhora da Graça e da Senhora dos Prazeres por parte do Município como, de resto, desde tempos imemoriais acontecia.
A mesma percepção – honras lhes sejam feitas - tiveram várias administrações municipais que fizeram da manutenção do sítio da Senhora da Graça, um dos seus principais desideratos e só abdicaram dessa responsabilidade e dever quando confrontados com uma intimação do Ministério das Finanças, nos anos 40. E, mesmo assim resistiram e foram protelando como puderam, a sua transferência para a Igreja.
A Senhora da Graça nunca pertenceu à Paróquia. Que fique o registo e não se agitem mais fantasmas de “perseguições liberais” ou de “ódios republicanos”.
Homenagem tardia
José Francisco Figueiredo “serviu – cito uma vez mais o Dr. João António da Silva Caldeira – dedicada e cristãmente, os altos comandos espirituais e morais, ora a ensinar os patrícios e a engrandecer e enaltecer a sua terra, ora protegendo e auxiliando os da sua gente e socorrendo e encaminhando, pela palavra seguida de rigoroso exemplo, os desprotegidos e aguilhoados da desventura”.
Pelo seu exemplo, pelo seu carácter, pelo amor e dedicação à sua terra, não merecia que só após 50 anos da publicação da sua “Monografia” (2006) a Câmara de Nisa tenha resolvido atribuir o seu nome a uma rua da vila, no Bairro da Cevadeira, junto à Escola do Convento.
É uma história com final feliz, a de um cidadão e professor que “não passou a vida a servir-se”: SERVIU.
Nisa e os seus filhos que têm memória, agradecem.
NOTAS
(1) Dr. José António da Silva Caldeira – Prefácio – “Monografia da Notável Vila de Nisa”
(2) Actas das Sessões da Câmara Municipal de Nisa – 1929/1932
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 28/9/20

domingo, 11 de dezembro de 2011

À FLOR DA PELE - A emigração nisense nos anos 60

Este parte, aquele parte / E todos, todos se vão. / Galiza, ficas sem homens / Que possam cortar teu pão.Rosália de Castro (poetisa galega)

A emigração portuguesa para França, nas décadas de 60 e 70 do século passado, particularmente, a dos norte-alentejanos, em busca da esperança e de melhores condições de vida, representou uma autêntica epopeia, escrita com palavras de sofrimento, coragem e saudade. Está por fazer, ainda, o retrato dessa época em que as aldeias e vilas do Alentejo começaram a ficar desertas e a verem partir, pela calada da noite, os braços válidos e activos dos homens a quem o país negava o essencial de uma vida digna.
Falar de emigração
Nisa, três da tarde, num dia de calor sufocante. A casa, no Boqueirão, onde funcionou durante anos a delegação concelhia da Assistência Nacional aos Tuberculosos, de triste memória, serve agora de Centro de Convívio onde idosos de várias idades podem jogar às cartas, xadrez, dominó, ver televisão ou ler jornais e revistas.
Aí encontrámos um grupo de nisenses, com uma história de vida comum, a da emigração. Três deles demandaram terras de França, e são viúvos. O outro, abalou até Lisboa. Todos, à procura de uma vida melhor.
Percursos de vida que quiseram partilhar connosco e que constituem pequenas amostras da realidade social e política vivida em Portugal nos anos 60.
Joaquim da Graça Basso, o mais velho do grupo, tem 81 anos, 22 dos quais a trabalhar em França na região de Tours.
“Fui para França em 1965 à procura de trabalho e de melhores condições de vida. Em Nisa estive até aos 35 anos, partia e fornecia pedra para as obras. A minha mulher vendia peixe. Era uma vida de sacrifício e pouco rentável, mas íamos sobrevivendo, até que começou a faltar trabalho e fui obrigado a emigrar. Estive três meses a trabalhar sem contrato, como servente. Depois as coisas compuseram-se e ganhei a minha reforma a trabalhar na construção civil.”
Joaquim Basso não gosta de recordar o que passou para chegar a França e prefere, antes, lembrar o que a vida de emigrante lhe proporcionou.
“Trabalhávamos muito e no duro, mas se não tivesse emigrado nunca poderia ter construído o prédio que tenho e ter pago os estudos ao meu filho que se formou em Medicina. Acho que os emigrantes deviam ser homenageados em Nisa, com um monumento, para que as pessoas não esqueçam o regime que tivemos e a história dos milhares de nisenses que foram obrigados a partir, uma história escrita com sangue, suor e lágrimas”.
Manuel Quintino da Silva Dinis (Manuel Comporta), com 70 anos, é o mais novo dos quatro, e talvez por isso, o que tem mais “fresco” na memória, o drama da emigração.
“Fui para França, “a salto”, clandestinamente, em1966. Trabalhava no campo e ganhava-se pouco. Segui o rumo de outros conterrâneos e do que passei para chegar a Toulouse, fiz umas quadras para registo dos mais novos. Em França trabalhei 3 anos na construção civil e mais tarde numa estação de serviço da Móbil onde passei à reforma, em 1996. Dois dos meus filhos nasceram em França, um foi de cá com mês e meio de vida. Reparto a minha vida entre França e Portugal. Venho muitas vezes a Nisa matar saudades, os meus filhos gostam da terra e também cá vêm.”
Manuel Dinis fala da França com orgulho e gratidão. “Deu-me trabalho, uma vida melhor e mais digna. Deu-nos a liberdade que cá não tínhamos e por isso também penso que se justifica uma homenagem aos emigrantes, aos filhos de Nisa que abalaram para França, para outros países e também para Lisboa e outras terras portuguesas. Um monumento seria de inteira justiça, pelo que nós sofremos e pelo que demos ao país.”
António Maria Marquês, 80 anos, não precisou de passaporte de turista, nem de ir “a salto” para rumar até à capital.
“Tinha 34 anos quando abalei para Lisboa. Trabalhava no campo, nem sempre havia trabalho, ganhava-se mal e era preciso sustentar a família. Trabalhei na Presmalte e na Fábrica de Fogões Portugal, na Póvoa de Santa Iria. Reformei-me aos 65 anos e regressei a Nisa. Como me sentia com forças e durante algum tempo ainda trabalhei como servente de pedreiro.”
Gosta de passar a tarde no Centro de Convívio, quando há companheiros e ali se entretém a jogar dominó e a olhar de soslaio algum programa de televisão.
De França, ouve com atenção o que os companheiros lhe contam e dá o seu assentimento à ideia de um monumento aos emigrantes, ele que também foi emigrante no seu próprio país.
António Maria Salgueiro, abalou para França em 1966. Fixou-se na zona onde residem e trabalham a maioria dos nisenses em terras gaulesas, a vila de Azay-le-Rideau, na região de Indre et Loire, no centro de França. Emigrou pelas mesmas razões dos seus companheiros, tendo trabalhado na construção civil e numa fábrica de tijolo.
Reformado, 79 anos, divide a sua vida entre Portugal e França.
“ A França deu-me a vida que tenho. Cá andava sempre com uma mão detrás e outra frente. Tenho três filhos, dois estão em França e a minha filha está na Policia, em Lisboa. Gosto de vir a Nisa e encontrar-me com os meus “artilheiros”, passar um pouco de tempo no jardim, no centro de convívio ou a fazer qualquer coisa no campo. Quem se habituou ao trabalho nunca se desabitua. Em França para se ganhar e poupar alguma coisa tínhamos que trabalhar no duro. Não pensem que nos davam o salário e as condições de mão beijada. Não. Por isso, concordo com o que disseram sobre o monumento aos emigrantes e acho que já devia estar feito.
Os nisenses estão bem vistos e integrados em França, principalmente na região de Tours, onde moro. É justo que reconheçam o que nós fizemos pelo país”.
Jaime Cortesão em “Os Emigrantes” escreveu: “ Partir é quase morrer. / Pode ser p´ra nunca mais: / Dentro do peito a bater / Um sino toca a sinais.
Manuel Dinis (Comporta) deixa-nos um relato, em verso, do que foi a epopeia da emigração portuguesa clandestina para França. Um drama que ele próprio viveu e sentiu na pele. Em busca de um futuro melhor!

A ida de um clandestino de Portugal para França – Anos 60
Abalei da minha terra
Sem dinheiro nem passaporte
Com destino para França
Sujeito a encontrar a morte

Foi de Nisa que parti
Com os olhos todos molhados
Deixando a minha mulher
Há pouco tempo casados.

A Castelo Branco cheguei
Para o passador encontrar
Daí tomámos o rumo
Para um rio atravessar.

Estivemos no meio de um mato
Uma noite e um dia
Cheio de frio e fome
Com a barriga vazia.

Chegámos a uma terra
Que se chamava Naves Frias
Aí estivemos fechados
Cinco noites e cinco dias.

Éramos catorze homens
Dentro deste palheirão
À espera que nos dessem
Um bocadinho de pão.

Daí seguimos viagem
Cansados mas sorridentes
De catorze já passámos
A ser mais de duzentos.

Quando foi à noitinha
Toda a gente se pôs de pé
Foi esta a maior etapa
Quarenta e quatro horas a pé.

Éramos só dois de Nisa
Tinha um bom companheiro
É um rapaz que se chama
O amigo José Salgueiro.

Ao fim de quarenta e quatro horas
Aí parámos então
Para descansar um pouco
À espera de um camião.

... Chegámos então a França
A um monte fomos parar
À espera do bilhete
Para o comboio apanhar.

Doze dias eu demorei
Para este país encontrar
Não desejo a ninguém
Este sacrifício passar.

Todos estes sofrimentos
Toda esta amargura
Para deixar o país
No tempo da Ditadura.

Só os ricos é que mandavam
Nós nem podíamos falar
Podemos “agradecer”
A um chamado Salazar.

É isto que me dá pena
É isto que me revolta
O autor destes versos
Chama-se, Manuel Comporta.

Sem dinheiro para a viagem
Para pagar ao passador
Foi a minha avó Pelota
Que me fez este favor.

Com isto vou terminar
Manuel Comporta me assino
Para que toda a gente saiba
O que foi um Clandestino!
Manuel Comporta - 6 Março de 1966

* Texto e fotos de Mário Mendes in "Alto Alentejo" -

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

GENTE DA MINHA TERRA (IV) - José Casimiro

“ Corri meio mundo pela música e pelo futebol”
José Casimiro da Piedade Bicho, nasceu em Nisa, há 77 anos.
Andou na Escola do Rossio, aprendeu as primeiras letras com o professor Camilo, pisou, descalço, os caminhos e azinhagas que o levavam à brincadeira e à aventura, quando não havia bola de trapos para pontapear. A rua era, na década de 30, o espaço natural de convívio, experiências e crescimento. Com o pai, aprendeu a arte de carpinteiro e tomou o gosto pela música. Uma paixão que durante a vida lhe garantiu uma parte do sustento, mas que teve que dividir com outra: o futebol. Em “Gente da Minha Terra”, José Casimiro, começa por nos lembrar alguns dos tempos da sua infância
“Nasci na rua Direita e frequentei a Escola Primária do Rossio, tendo como mestre o professor Camilo.
O jogo da bola era a nossa principal brincadeira. Jogávamos à bola nos Postigos, ao lado do Cinema, no largo da Escola, onde calhava e não implicassem connosco. As bolas eram as famosas “trapeiras”. Eu roubava meias velhas à minha mãe e enchíamo-las de trapos. Era assim naquele tempo, não havia dinheiro para o essencial, quanto mais para bolas.”
Paixão pelo futebol e pela... música
José Casimiro teve sempre a música como companheira de infância. O pai e a vizinhança não deixavam passar, um dia que fosse sem que os acordes musicais da trompete, do saxofone, do banjo ou da concertina alegrassem as ruas próximas da Praça do Município.
“Posso dizer que nasci num ambiente “musical” e este acabou por me influenciar e dar um rumo à minha vida. O meu pai era o homem dos sete instrumentos e tocava desde o saxofone ao banjo e acordeão.
O meu grande sonho era jogar à bola. Tinha jeito, jogava a avançado e marcava muitos golos, mas o meu pai teimava comigo pois queria que eu fosse músico. Ainda aprendi clarinete na banda de música com o mestre Franco, mas foi a tocar acordeão que me tornei conhecido e ganhei alguns tostões ainda na minha juventude. Foi o meu pai que me ensinou e ainda me lembro do primeiro serviço que fiz, com 13 ou 14 anos, o casamento do ti Laquim. Dois dias de festa, a tocar no acompanhamento e nos bailes.
Assim que acabei a instrução primária comecei a aprender a arte de carpinteiro e marceneiro com o meu pai. Aos sábados e domingos havia bola e bailes à noite.
Percorri o concelho de Nisa e outras terras vizinhas a tocar em bailaricos, casamentos, e acompanhamento dos rapazes que iam tirar “sortes”
No princípio dos anos 40 formou-se um clube popular, os Canários, e eu fui um dos fundadores. Não tínhamos sede nem nada, juntávamo-nos só para jogar futebol. Pagávamos uma quota simbólica, para podermos comprar uma bola e sempre que havia jogo, lá ia eu pedir umas pontas de sapateiro e uma sovela ao ti Augusto Calhabré para podermos dar uns pontos na bola se ela rebentasse.
Com 17 ou 18 anos comecei a jogar no Nisa e Benfica e posso dizer que tínhamos uma grande equipa. Naquela altura não havia provas oficiais nem as “camadas jovens”. Foi pena porque havia muita rapaziada com jeito e vontade de jogar futebol. Jogávamos em muitas terras do distrito, desde Arronches, Gáfete, Portalegre e tantas outras, e íamos a Espanha, a Valência de Alcântara, disputar um torneio nas festas de Verão. Uma das vezes em que ganhámos o torneio marquei dois golos.
No futebol e em competições oficiais joguei na Casa do Povo da Urra e fomos campeões regionais da FNAT, sendo eliminados pela Companhia dos Telefones (Lisboa) que era uma autêntica selecção de jogadores veteranos e que passaram pela 1ª Divisão nacional.
Eu gostava muito de futebol e chegava a vir de Lisboa, de propósito só para jogar.”
Como muitos jovens do seu tempo, José Casimiro teve de sair da sua terra e procurar novos horizontes para o futuro que começara a construir.
“Estive em Nisa a trabalhar até 1960, ano em que entrei para a Carris, como motorista.
Em Nisa, tinha o ofício de carpinteiro e tocava em bailes, festas e “sortes” por todo o distrito.
A par do futebol, acabei por agarrar a concertina com as duas mãos. O meu pai ensinou-me e durante a vida fui sempre um autodidacta. Na tropa, durante 29 meses, também aprendi muito, pois tinha uma grande facilidade em fazer a leitura musical.
A ida para Lisboa facilitou o contacto com outros músicos e com empresários do ramo.
Durante as décadas de 60, 70 e parte da de 80, fiz o acompanhamento musical de muitos artistas conhecidos, como Lenita Gentil, Fernanda Batista, Anita Guerreiro, Vitória Maria, Tristão da Silva Jr., Rosita Afonso, hoje mais conhecida como Rosa do Canto, Joaquim Cordeiro, Francisco Jorge e tantos outros.
Foi uma época de trabalho muito preenchida e esgotante, com espectáculos todos os fins-de-semana, na zona de Lisboa, no Ribatejo ou no Alto Alentejo. Posso dizer que, praticamente, actuei em todas as localidades do nosso distrito.
Em 1982, percorri todas as localidades do concelho de Loures e muitas outras do país, com a revista “ A Pata que os Pôs” com o José Viana, Dora Leal, Carlos Miguel, Lia Sena e outros actores.
Participei, a título gracioso, em muitos espectáculos de beneficência, tanto em Lisboa, como em Nisa e Vila Velha de Ródão, terra da minha esposa.”
Sinfonia na Rua Direita
A Rua Direita, onde nasceu José Casimiro, chegou a ser conhecida como a rua dos músicos, tal a quantidade (e qualidade) dos executantes que ali residiam e que a horas certas ou incertas faziam ouvir os seus instrumentos.
“É verdade. A Rua Direita, a certas horas, mais parecia uma orquestra sinfónica, tal a quantidade de músicos que se ouviam na rua a ensaiarem. No princípio da rua estava o ti Xirra. Em frente, a nossa casa e três músicos (o meu pai, eu e o meu irmão António que também tocava acordeão). Mais acima, o ti Abílio Porto, o ti Luís Félix e a família Calhabré, pai e filhos, onde ensaiava o grupo “Os Fixes”
Na casa do meu pai ensaiou durante algum tempo o grupo “Os Unidos”. Enfim, nesses tempos, Nisa tinha muitos e bons músicos, havia um grande gosto pela música, um gosto que felizmente não se perdeu.
Eu ainda fiz parte de um conjunto musical, “Alegria e Ritmo” que além de mim, integrava o meu irmão António (tocávamos os dois acordeão), Carlos Pequito (clarinete) Vítor Bonito (vocalista e bateria) e Manuel Filipe (vocalista e bateria).
Actuámos várias vezes em Portalegre, nos santos populares, no bairro junto ao campo da Fontedeira. Na altura, Portalegre tinha boas orquestras, como a “Ideal”, Ferrugem”, “Alentejanos”, mas nós conseguíamos atrair mais gente porque tínhamos um melhor repertório, principalmente de músicas espanholas que o meu pai arranjava.”
Aos 77 anos, com duas filhas e três netos, José Casimiro continua a adorar a sua terra, a ser presença nos convívios dos Zés, dos “artilheiros” e noutras festas populares, como a da romaria da Senhora da Graça, onde a sua concertina já faz parte da paisagem “musical”. Foi lá que o encontrámos e nos desfiou o seu registo de memórias.
“Venho a Nisa sempre que me convidam. Gosto de conviver com os meus amigos, lembrar a minha infância e juventude, os tempos que cá passei.
Era bom que voltassem a fazer umas festas como as Festas do Povo, em 1975 e 1976, nas quais colaborei com muito prazer, com actuações e ajudando a escolher muitos artistas.”
Mário Mendes in "Fonte Nova" - 3/5/2011

Evocação de Augusto Pinheiro: pintor naif, cidadão de Nisa



Passam hoje, dia 18 de Outubro, dezassete anos sobre a morte de Augusto Dinis Pinheiro, pintor naif, nascido a 22 de Agosto de 1905 na vila de Nisa.
Era comerciante de profissão e começou a pintar aos 66 anos. Participou em 40 exposições colectivas em Portugal e no estrangeiro e realizou 17 individuais.
Aqui e agora, evocamos o homem e o artista – um dos mais consagrados, a nível nacional, na arte naif – lembrando o seu sonho maior, ainda por concretizar: a instalação de um Museu em Nisa, sob o patrocínio da Santa Casa da Misericórdia, instituição onde faleceu e a que doou parte considerável do seu espólio artístico.
Publicamos, a título de homenagem e num momento pleno de oportunidade, as quadras que escreveu para o "Correio de Nisa", em 12/2/1969, em resposta a umas de Maria Pinto publicadas no mesmo jornal sob o título "Nisa tão pobre estás".
É verdade Maria Pinto
Tudo mudou, tristemente
A transformação de Nisa
É mágoa que a gente sente


És tu que dás as notícias
Aos que estão fora da terra
Fazes reviver o passado
Como pintura em aguarela.


Sinto como tu sentes
Que Nisa já não é Nisa
As moças não têm encanto
Sem roupinha nem camisa


Acabaram-se os costumes
Fugiu toda a tradição
Nisa perdeu a graça
Perdeu o estilo e devoção


Tudo passou de moda
Desde o traje à alimentação
As bocas estão tão finas
Que ninguém quer comer cação


O toucinho era prós pobres
A farinheira e a morcela
Agora só comem febra
Fiambre, paio e mortadela.


Feijões pretos era dantes
Páparratos já não se usa,
Ninguém quer papas de milho
Só chouriço da Escusa.


Açorda é prato dos ricos
Por ser comida ligeira
Acabaram-se as criadas
Já não têm cozinheira


Vêrsas já ninguém quer
Só grêlos de couve nabo
Couve flor com molho branco
Vitela e frango córado

Do canádo já ninguém come
Tudo tem louça d´alumínio
Pelo coucho ninguém bebe
Só por copo de vidro fino.

Quebraram-se as caçólas
Casamentos sem afogado
Sandewiches é mais fino
Com vinhos do Porto e abafado

E, sem mais, Maria Pinto
Até Maio se não chover
No dia que for a Nisa
À tua porta vou bater.
Um nisense - 12/2/1969

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

GENTE DA MINHA TERRA (III)




“ O teatro foi sempre para mim uma paixão” - Ana Maria Paulo
“Mãos sujas do trabalho / Não tendes que ter vergonha /Estais sujas do trabalho /Mas limpas de peçonha”
Nisa foi sempre uma terra de artistas e de gente com grande paixão pelo teatro. No século XIX e à falta de melhor, instalavam-se palcos em espaços públicos para as representações de actores locais. Nos anos 40, 50 e 60 do século passado, muitas foram as peças de teatro levadas à cena, por amadores nisenses. A propósito do Dia Mundial do Teatro (27 de Março) trazemos à memória um espectáculo realizado no dia 11 de Março de 1946 e as emoções que o mesmo provocou à principal intérprete da peça “Romeu e Julieta”, Ana Maria Paulo.
“ Foi uma coisa nunca vista em Nisa, o Cine Teatro cheio, à cunha, as pessoas, ricos e pobres, na expectativa para verem o que nós fazíamos”.
A estreia foi o culminar de um longo trabalho, que incluiu seis meses de ensaios, à noite, numa sala da JAC (Juventude Agrária Católica), depois de um longo e duro dia de trabalho. A senhora Ana Maria, 81 anos, 22 dos quais a trabalhar em França, recorda como tudo se passou.
“O principal impulsionador do teatro foi o meu pai, Joaquim Paulo. Trabalhava na Horta do Parreirão e à noite recolhia-se, sem dizer nada a ninguém. Andou um ano a ler o romance “Romeu e Julieta” e a estudar a forma de o levar ao palco. O meu pai não andou à escola, aprendeu a ler e a escrever na tropa, mas tinha também o “bichinho” do teatro e conseguiu arranjar um bom grupo para a representação. As mulheres e parte dos homens trabalhavam no campo e foi preciso uma grande força de vontade para levarmos este desafio por diante. O meu pai era muito disciplinado e não admitia faltas de respeito. Em 1946 não era nada fácil juntar um grupo de mulheres e pô-las em cima de um palco a representar, mas o meu pai conseguiu.” Actores, ensaiador e técnicos de "Romeu e Julieta" - 11 Março de 1946 em Nisa
Ana Paulo tinha 17 anos e ainda recorda com um frémito de emoção e um brilho nos olhos, o seu papel de “Julieta”.
“ Representar foi sempre um desejo que tive na ideia e depois da apresentação da peça e a recepção que tivemos da parte do público, ainda mais se cimentou essa vontade. A reacção do público foi fantástica. O Cine Teatro parecia vir abaixo com tantos aplausos. Aplausos que eram um grande prémio para todos e especialmente para o meu pai que tanto trabalhou para aquele momento. Não esqueço o grande esforço que foi feito. As senhoras ricas de Nisa emprestaram os fatos, alguns adereços vieram de Lisboa, por aluguer. Os cenários foram feitos com o espírito de ajuda que existia entre todos nós. A segunda parte dos espectáculos era dedicada a Variedades e eu também cantava, tal como as minhas companheiras, sendo acompanhadas pela música do grupo de jazz “Os Fixes”. Lembro-me de ter cantado “As mãos sujas do trabalho”. Houve duas representações em Nisa, com lotação esgotada. Mais tarde, o meu pai levou à cena “Escravos de Amor” onde desempenhei também o papel principal, “Deolinda”, mas foi a peça “Romeu e Julieta” que me ficou sempre no coração e na memória, de tal maneira que, ainda hoje sei, quase de cor, todos os diálogos.” O exemplo de um trabalhador rural, com exíguas habilitações literárias, não passou despercebido a um dos professores locais que, no semanário “Correio de Nisa” lhe teceu os maiores elogios, bem como ao grupo de amadores, dedicando-lhe mais de meia página do jornal.
“ Num propósito louvável e numa atitude que só nobilita quem a assume, um grupo de amadores dramáticos soube dar aos seus pares e a todos nós, um salutar exemplo de dedicação pela sua terra e de anseio pela sua ascensão e melhoria intelectual, cívica e moral”, assim escrevia o prof. José Francisco Figueiredo que, mais à frente, esclarece:
“ E querem os leitores saber por que motivo todos mais se empenharam e não se pouparam a esforços e canseiras para levarem a bom termo tão difícil e tão desmedido empreendimento? É que o drama Romeu e Julieta fora urdido por um dos seus companheiros de trabalho, o rural Joaquim Paulo, depois de vivamente impressionado com a leitura persistente e interessada do romance do mesmo título. E este fogo interior, esta chama emocional apoderou-se de tal modo do espírito de todos os intérpretes que ninguém poderia dissuadi-los de fazerem a sua estreia de amadores dramáticos numa peça de tantas dificuldades e tão exigente de recursos cénicos.”
Referindo-se ao espectáculo, o autor não poupa nas palavras elogiosas aos actores. “Tanto no drama como no acto de variedades, não podia exigir-se mais de todos os intérpretes. Sem desprimor para os outros, merecem especial menção Ana Maria Paulo, no papel de Julieta; Belmira André, em vários números de canto e Adelino Barra, que teve de substituir, à última hora, o amador a que fora distribuído o papel de Romeu”.
Damos, de novo, a palavra à senhora Ana Maria. “Guardo este jornal há 65 anos e revejo sempre com grande felicidade aqueles momentos inesquecíveis. Conseguimos levar à cena uma peça de teatro, fruto de muito trabalho e de grande ajuda entre todos, tivemos um grande êxito e as receitas foram oferecidas, generosamente, à Santa Casa da Misericórdia de Nisa. Para gente pobre, como eram todos os participantes, demos também um grande exemplo.” Ana Maria Paulo parece reviver o drama e a teia amorosa que opôs os Capuletos e os Montecchios no romance de Shakespeare. Fala do conde Páris, Frei Lourenço, Mercúcio Teobaldo ou Benvólio como se estivesse em cena, deixando escapar uma revelação. “O eco do sucesso de “Romeu e Julieta” foi tal que houve uma companhia de teatro que veio ver de mim, mas o meu pai nunca me disse. Temia que eu abalasse e como eu namorava, acabei por casar e constituir família. Mas foi sempre uma grande mágoa que ficou dentro de mim. Gosto muito de teatro e sempre que a televisão mostra alguma peça ou revista largo tudo para ver.”Ana Maria Paulo não “casou” com o Romeu, nem com o conde Páris. Desposou o “seu” João Cebola e esta história não podia ter um final mais feliz.
O teatro do ti Pales
Joaquim da Graça Paulo, se fosse vivo, teria completado 100 anos em 15 de Novembro de 2010. Trabalhador rural, a sua escola foi a da enxada e a dos trabalhos na lavoura. Aprendeu a ler e escrever na vida militar. O gosto pela leitura levaram-no a idealizar espectáculos populares de teatro e a levar à cena, dramas e romances que o entusiasmaram. E se bem o pensou, melhor o fez. Reuniu as pessoas, numa época em que era difícil despertar os homens e mulheres para as actividades culturais, mais ainda com ensaios, após um dia de dura labuta no campo. Ainda hoje em Nisa é comum ouvir-se falar nos teatros do ti Páles (Paulo). O seu exemplo frutificou e depois de si outras pessoas tomaram o gosto pelos ensaios e representação teatrais. Romances como “A Morgadinha dos Canaviais” ou o “Visconde de Val Flor” foram levados à cena, em Nisa, sempre com grande e entusiástico apoio popular. O que não é de estranhar, tendo em conta que, desde os anos 30 do século passado, as principais companhias portuguesas de teatro faziam de Nisa um dos seus “poisos” habituais, daqui irradiando a sua acção para concelhos vizinhos.
Mário Mendes in "Fonte Nova" - 29/3/2011

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

GENTE DA MINHA TERRA (II)

“ É preciso sarar as feridas da guerra do Ultramar”
_ Joaquim Mourato, ex-combatente na Guiné

Cerca de nove mil mortos, mais de quinze mil e quinhentos ex-combatentes portadores de deficiência, e mais de 140 mil sofrendo distúrbios pós-guerra, afectados com deficiências motoras, sensoriais, orgânicas e mentais, homens marcados física e psicologicamente para o resto das suas vidas, arrastando nesses processos pós traumáticos as próprias famílias e os amigos.
A história de 13 anos de guerra colonial, iniciada em Angola há 50 anos (Fevereiro de 1961) está por fazer.
Em “Gente da Minha Terra” publicamos, hoje, o relato de um ex-combatente, herói anónimo entre tantos outros da guerra do Ultramar.
Joaquim Maria Correia Mourato
, 66 anos, nasceu e reside em Nisa e foi um, de entre o milhão e quatrocentos mil homens que demandaram terras africanas de Angola, Moçambique e Guiné.
Uma história, a sua, que é também uma homenagem aos militares que perderam a vida e às famílias que não esquecem os entes desaparecidos.
Do campo para a vida militar
“A minha família era numerosa e eu trabalhava no campo quando fui chamado para o serviço militar. Apresentei-me em Elvas no Batalhão de Lanceiros, onde fiz a recruta. Daqui fui para Estremoz para o Regimento de Cavalaria 2 para tirar a especialidade. Levava comigo, sem o saber, um louvor do comandante de companhia e fui escolhido para integrar um grupo de operações especiais.
A preparação foi feita já na Guiné para onde tínhamos embarcado. Estive naquela antiga província de 1966 a 1968 e fazia parte do Batalhão de Cavalaria 1897.”

Joaquim Mourato percorreu muitas regiões da Guiné, como Mansabá, Mansoa, Cufar e outras. Terras de balantas, beafadas, fulas e mandingas, etnias cujos nomes pouco ou nada dirão aos portugueses. Andou por tabancas (aldeias) comeu bianda (arroz) pisou a pé muitos quilómetros de capim e de bolanhas, viu camaradas seus a tombarem e sentiu algumas vezes a morte a rondar-lhe o corpo.
Ia preparado para a guerra e nenhuma situação o fez vacilar. Destemido, ganhou a confiança dos seus camaradas de armas e a sua coragem em combate foi reconhecida pelos mais altos comandos militares.
“ O meu batalhão era chamado para muitas zonas e operações onde se fazia sentir mais intensamente a presença do inimigo. Participámos na célebre “Operação Fabíola” em Abril de 1967, entrámos várias vezes nos Morés, que era considerado um dos “santuários” do PAIGC. Nunca senti medo e em qualquer situação avançava sempre.
Mas eu gosto pouco de falar desse tempo...”
Corajoso e humilde, Joaquim Mourato foi louvado pelo Comandante do Comando Territorial Independente da Guiné e do louvor consta que “em todas as situações de combate tem demonstrado invulgares qualidades de coragem, espírito de sacrifício, entusiasmo e sangue frio (...). De registar a sua atitude no decorrer da “Operação Fabíola”, em que na exploração de um sucesso, tendo avistado a grande distância alguns terroristas armados, em fuga, instantaneamente se lançou numa corrida veloz sobre eles através dum capim altíssimo e denso movendo-lhes perseguição aturada”.
A distinção não lhe mudou a vida, nem as condições próprias de um soldado raso. Continuou a viver como os seus companheiros, o dia a dia difícil, de combatente, numa terra distante, estranha e de clima ingrato.
“ Estávamos em guerra, tínhamos sido mobilizados para combater e o que queríamos todos era cumprir a comissão e se possível regressarmos sãos e salvos à Metrópole”.
Nem todos conseguiram esse desiderato. Milhares, de um lado e do outro, perderam a vida, os sonhos de constituírem família ou de abraçarem os entes queridos.
Louvores e exemplo para a unidade
Entretanto, Joaquim Mourato voltava a ser distinguido, agora por desempenho na operação “Efusão III”.
“É daquelas coisas em que nem sequer temos tempo para pensar. Íamos numa picada e o guia nativo que estava na frente tinha sido ferido com bastante gravidade e mesmo debaixo de fogo, não pensei duas vezes, a não ser em lhe prestar os primeiros socorros. Esqueci-me de tudo o resto, mas felizmente o homem acabou por salvar-se.”
O facto não passou em claro e a Ordem de Serviço do Batalhão de Cavalaria 1897 regista, em louvor, o sentimento de “gratidão e humanidade excepcionais”, reafirmando que esta praça é “aprumada, correcta e leal, um exemplo constante que muito prestigia e honra a unidade a que pertence”.
Em Março de 1968, por despacho do Comandante-Chefe das Forças Armadas da Guiné, general António de Spínola, Joaquim Maria Correia Mourato é condecorado com a Cruz de Guerra de 4ª classe, condecoração que só viria a receber alguns anos depois.
“Regressei da Guiné e fui trabalhar para França, para a região de Tours. Em 1974, após o 25 de Abril ainda me convidaram, com viagens pagas e tudo para vir receber a Cruz de Guerra no dia 10 de Junho, mas a cerimónia não se realizou e lá fiquei à espera.
Voltei de França em 1989 e retomei a actividade que lá aprendi, pedreiro e estucador.
Já tenho a Cruz de Guerra, os diplomas e os louvores que me passaram, mas a minha vida continua a ser de trabalho. As condecorações não me melhoraram a vida. A guerra colonial já lá vai, provocou danos irreparáveis a muitas famílias, muitos camaradas ficaram feridos e muitos outros nunca mais puderam ver as suas terras e as suas gentes.
Os governantes e a gente mais nova parece que esqueceram a guerra do Ultramar, mas é bom que saibam que durante esse tempo não pudemos escolher o nosso destino e sonhar com o futuro, sem ter o compromisso da guerra pelo meio.”
A história de Joaquim Mourato é o pretexto para lembrarmos outros ex-combatentes nascidos no concelho de Nisa e em todas regiões do país. Muitos, morreram, defendendo o conceito de “Pátria” vigente. Outros, feridos, nunca mais puderam retomar os sonhos da juventude. Uns e outros, todos, merecem ser lembrados pelas entidades municipais e governativas.
Para que não se passe uma esponja sobre uma guerra que tanto sofrimento e angústia trouxe a milhares de famílias.
O 10 de Junho – Dia de Portugal
O dia 10 de Junho, Dia de Portugal, - hoje também de Camões e das Comunidades Portuguesa – foi, até ao 25 de Abril de 1974, o dia das paradas militares, de exaltação nacionalista, da apologia guerreira e da atribuição de condecorações, por feitos em combate ou de bons serviços nos territórios ultramarinos.
Desfilavam “rapazes”, alguns “atletas ginasticados”, carne para canhão de uma guerra injusta.
Era o “cortejo das viúvas” de que fala o Rui Veloso numa das suas canções, mulheres ainda jovens, na flor da idade, vestidas de luto e que iam ao Terreiro do Paço para receberem, a título póstumo, as condecorações atribuídas aos maridos, filhos ou irmãos.
Era o tempo dos “soldadinhos de chumbo” regressados num caixão de pinho como cantou, de modo pungente, o Adriano Correia de Oliveira.
Dramas esquecidos de uma guerra que tantos jovens vitimou e sobre a qual o país não soube, ainda, lamber as suas feridas.
Mário Mendes in "Fonte Nova" - 15/2/2011

domingo, 25 de setembro de 2011

NO RASTO DA MEMÓRIA: O Bom Pastor *

Estas palavras são um tributo a todos os pastores. Foram muitos os que passaram pela casa do meu pai e com os quais tive oportunidade de conviver. As primeiras memórias vão para o início dos anos setenta. No Couto da Marfeira onde o meu pai era rendeiro, recordo dois grandes homens no pastoreio do gado. O primeiro é o Ti Zé Barra: O Ti Zé Barra era um homem altivo, não tinha o polegar da mão direita, usava chapéu de aba direita, era mestre no maneio do gado e o melhor na caça com pau. O outro pastor que recordo, primeiro no Azinhal e depois na Marfeira, foi o tio do meu pai, José Bento. A casa da Marfeira utilizada pelos pastores era de uma pobreza franciscana. Uma sala ampla com lareira e os respectivos utensílios; a tenaz, a trempe, panelas de barro, bancas de pau, uma pequena mesa (mesa de pastor) e a lenha ali ao canto do lume. Estacas de madeira espetadas na parede, serviam para pendurar qualquer coisa, o casaco, o barril de barro para manter a água fresca, o machado, etc. Acompanhando as ovelhas de pastagem em pastagem, o pastor era um autêntico nómada.
São também dessa época alguns episódios passados na Herdade da Nave da Cheira, entre Póvoa e Meadas e Castelo de Vide. Aqui a casa tinha outras condições, construída sobre um enorme rochedo de granito, tinha várias divisões e forno. Foi na Nave da Cheira onde os meus avós maternos estiveram a explorar a horta entre 1969 e 1976, sempre na companhia de pastores. Aos Domingos íamos jantar a esta propriedade, para podermos usufruir da sua companhia. O mobiliário era apenas o indispensável. A mesa das refeições era tão pequena que tínhamos de colocar o prato no colo. No canto oposto ao nosso o pastor preparava o seu jantar. Chamava-se José Domingos e era natural de Montalvão. A minha avó convidara-o para jantar connosco, o pastor agradeceu mas manteve-se à distância a preparar a sua refeição. Era muito pequeno, mas ainda hoje recordo aquela imagem, a silhueta do pastor a jantar uma salada de tomate.
Deslocar os animais de um local para outro era um trabalho cansativo mas divertido. Na medida do possível também ajudava nestas mudanças. Íamos a pé de Castelo de Vide para o Pai Lázaro (Montalvão), do Pai Lázaro para o Pinheiro (Pé da Serra), do Pinheiro para a Velada, etc. Posicionava-me à frente do rebanho e o pastor atrás ou vice-versa. No Pinheiro e no Vale Pedrão, as casas eram autênticos palheiros, sem um mínimo de condições. No Pai Lázaro onde a casa era um pouco melhor, os pastores eram por norma de Montalvão. Por ali passaram, entre outros, o Ti João Guanito, o Ti João Pássaro, o Manuel Pintor, o João Manuel e claro o tio do meu pai, José Bento. À noite lá ficavam os pastores junto do lume, com um rádio a pilhas e os seus cães. Não sei se por companhia tinham apenas a solidão, creio que não. Nas noites de céu limpo, eram aos milhões as estrelas que desciam sobre o monte. A sua luz iluminava o sonho do pastor. Quais seriam os seus sonhos? Quais seriam os seus projectos? No fim do dia, lá ia o Ti José Bento passar o serão com o Severino ao Monte Queimado ou ao Monte da Fonte dos Cantos. O Severino era o vizinho mais próximo. Mas para ir do Pai Lázaro ao Monte Queimado não era bem a mesma coisa que ir ali ao fundo da rua. Eram homens rijos, rijos no corpo e fortes no espírito, nada lhes metia medo. O João “Tanganho” é outro pastor que recordo, andava sempre a pé. Vinha a pé do Pai Lázaro para o Pé da Serra, do Rolengo (Nisa) para a Velada. Preferia andar a pé mesmo que lhe oferecessem transporte. O João tinha apenas um braço mas fazia todos os trabalhos relacionados com a sua actividade, o pior era quando se zangava. Às vezes nas mudanças do gado, as ovelhas saiam fora da rota, iam para todo o lado, excepto para onde nós queríamos. Nesses momentos o João gritava a bom gritar e o cão é que “pagava as favas” sem ter qualquer culpa.
Muitos desses pastores já partiram para a sua última morada. Nós na Terra quantas vezes continuamos à procura do Bom Pastor para nos indicar o trilho certo. Há dias sonhei com um pastor que já faleceu. Nos sonhos tudo é possível, não questionamos o que não faz sentido. Nesse sonho uma pessoa que me é próxima encontrava-se com uma doença grave, agonizava na cama sem qualquer esperança de cura. Reparo que no canto do quarto estava um dos pastores. Vou chamar-lhe simplesmente “José”. Dirijo-me a “José” e pergunto-lhe: Como era possível estar ali, dado que falecera há já tantos anos. O bom pastor respondeu-me nesse sonho. – “É verdade que já parti. Parti mas estou sempre presente. Estou aqui para ajudar”.
Nos últimos trinta anos os hábitos mudaram, é a evolução natural dos tempos. Não sei se os pastores ainda dormem nos montes. Não sei se ainda se muda gado. Não sei se ainda há pastores. Sei sim que estou grato a todos os bons pastores, pelo privilégio do convívio e pela aprendizagem. Quem sabe se, os que já partiram, não estão a interceder junto das estrelas, de todas as estrelas do céu. Que nas noites de céu limpo desçam até à Terra. Desçam para nos iluminar e para nos mostrar o melhor caminho, a todos, homens e mulheres do mundo. Quem sabe se os sonhos não fazem sentido. Quem sabe se, não continuam a olhar por nós, por todos nós sem distinção. Nós, ovelhas tresmalhadas.
Luís Mário Correia Bento
* Artigo publicado no "Jornal de Nisa" - 1ª Série