segunda-feira, 21 de março de 2016

Memória Nisense - Nisa, Gentes e Memórias

MEMÓRIA NISENSE PASSA A ESTAR ONLINE EM:
http://nisa-gentesememorias.blogspot.pt

Agradecemos a vossa compreensão e esperamos a vossa VISITA.

domingo, 7 de dezembro de 2014

NISA: Retratos Pequenos e Breves do Património Cultural (1)

 Iniciamos hoje a divulgação do original “Retratos Pequenos e Breves do Património Cultural e Natural do Concelho de Nisa”, da autoria de José Dinis Murta, que viria a ser publicado em Nisa Viva – Revista de Cultura e Desenvolvimento Local, n.º 17, Dezembro 2009, págs. 3/14.
Atendendo à extensão do original este foi fragmentado da forma que se achou mais coerente e será, assim, apresentado em 17 sessões, sendo esta a 1/17.

Figura 1 - A Cruz do Negro
(depois dos calamitosos incêndios do Verão de 2007. Outubro de 2007)
Esta cruz com 2,5 m (aproximadamente) de altura foi furtada em Fevereiro de 2008
Cruz do Negro, Castelo de Montalvão, Fonte das Lágrimas, Fonte do Rossio, Jardim Municipal, Portas de Ródão, Árvore das Mentiras, Cortejo Etnográfico do Concelho de Nisa, À Descoberta do Património …, Exposição de Pintura …, Exposição de Cueiros, Rua Júlio Basso, Museu do Bordado e do Barro, Mostra etnográfica de objectos ligados à pastorícia, Menir do Patalou, Dia das Comadres, grifos na Web foram, num passado mais ou menos recente, alguns dos títulos e temas de notícias da imprensa local, regional e até, nalguns casos, nacional. Correram em blogs e alimentaram conversas de rua e de café (Figuras 1 e 2).

Figura 2 - Choço – habitação de pastores
Construído expressamente para a exposição “Mostra etnográfica de objectos ligados à pastorícia” - Montalvão – de 6 a 30 de Setembro de 2009
Porquê?
Foram trazidos às primeiras páginas uns por bons motivos e outros por maus. Reportavam-se a inaugurações (Museu do Bordado e do Barro), furtos (Cruz do Negro), destruição/derrube (Fonte das Lágrimas, Jardim Municipal, Árvore das Mentiras, Castelo de Montalvão), obras (Rua Júlio Basso, Castelo de Montalvão), aprovação de candidatura a património natural (Portas de Ródão), trasladação (Fonte do Rossio), conhecer e recordar o passado (À Descoberta do Património …, Exposição de Cueiros, Cortejo Etnográfico do Concelho de Nisa), abandono (Menir do Patalou).
Todas estas notícias, conversas e temas tratavam aspectos relacionados com monumentos, vivências, tradições, recordações de passado, usos e costumes, fauna, flora, história, pintura, artesanato …. tratavam, em suma, questões do património cultural e natural do concelho de Nisa.
Está a findar 2009 e para trás ficam acções dignas de elogio, mas também atentados e destruições que afectam o património cultural e com a agravante de perpetrados por organismos oficiais ou sob as suas barbas (por acção ou omissão). Apesar de a primeira lei sobre a protecção do património ter nascido há 288 anos, governava o Magnânimo, que em alvará com força de lei, datado de 20 de Agosto de 1721, decretou:
“(...) Hey por bem que daqui em diante nenhuma pessoa de qualquer estado, qualidade e condição que seja, desfaça, ou destrua em todo, nem em parte qualquer edifício que mostre ser daqueles tempos, [antigos] ainda que em parte esteja arruinado, e da mesma sorte as estátuas, mármores, e cipos (...) lâminas ou chapas (...) medalhas, ou moedas, que mostrarem ser daqueles tempos (…) e encarrego às câmaras das cidades, e vilas deste reino, tenham muito particular cuidado em conservar, e guardar todas as antiguidades sobreditas, e de semelhante qualidade …”
Constata-se que continua a não haver “muito particular cuidado em conservar e guardar” o património cultural, mas também o património natural.
O que se entende por património, por cultura, por património cultural, mas também por património natural? O que é que faz parte do património cultural e natural?
Estas perguntas contêm palavras, termos e expressões cujos significados e conceitos são maleabilizados, muitas vezes, por tudo e por nada, para o bem ou para o mal, conforme os interesses e as conveniências do momento – económicas, sociais, políticas.
Património e cultura têm alimentado acesas discussões. Deixá-las-emos de lado.
(continua em 2/17)
José Dinis Murta

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

IN MEMORIAN: José Vilela Mendes

José Vilela Mendes, faleceu na passada sexta-feira, dia 16, vítima de atropelamento, na rua 25 de Abril em Nisa, a sua terra adoptiva e para onde veio ainda criança.
Morreu de forma trágica e brutal quem viveu a vida sempre com um sorriso a iluminar-lhe a face, e a transmitir boa disposição a quem com ele convivesse.
Era, assim, na tesouraria da Câmara, onde trabalhou durante muitos anos, no Nisa e Benfica que serviu como jogador de rija têmpera, nos anos 60 e também como dirigente, faceta que repartiu por diversas colectividades, desde a Sociedade Artística à Sociedade Musical Nisense, entre outras.
Amante do cinema, José Vilela Mendes geriu o Cine Teatro de Nisa durante cerca de 20 anos, impedindo que a única casa de espectáculos do concelho de Nisa encerrasse as portas, depois do abandono da empresa Castello Lopes.
Durante a gerência de António Mendes, o nome do seu pai que o “emprestou” à empresa do filho, a antiga sala do Cine Teatro deu vida, animação e cultura, a várias gerações de nisenses. Por ali passaram inúmeros espectáculos musicais, peças de teatro, de companhias profissionais ou de simples amadores, entre estes, algumas representações de artistas locais, espectáculos de solidariedade, fossem a favor de obras sociais no concelho ou de outra índole.
Às quintas-feiras, mas, sobretudo, ao domingos, o “Cinema” enchia para ver os filmes que a empresa António Mendes trazia a Nisa, a preços populares, praticamente, o único divertimento que a vila possuía e que juntava gente de todas as idades.
Não esqueço as primeiras manifestações de liberdade, logo após o 25 de Abril e que tiveram o Cine Teatro como palco. Comícios, sessões públicas, debates, espectáculos, exibição de filmes, agora libertos das grilhetas da censura, ali ocorreram em ambiente de grande alegria e entusiasmo.
Nessa altura, já o velhinho Cine Teatro Nisense cumpria muito a custo, a sua função. A degradação do edifício agravava-se a cada dia e na eminência de derrocada foi obrigado a fechar as portas, pouco tempo depois.
Para José Vilela, o encerramento do “Cinema” constituiu uma grande tristeza, a “morte” de um filho pródigo, a quem tanto se devotara, mesmo sabendo tratar-se de uma medida inadiável.
Recordo o cidadão, o atleta, o homem de cultura que por amor ao cinema não deixou que os cinéfilos de Nisa ficassem sem a sua “casa de espectáculos”. Uma “casa” que, após as obras de recuperação se transformou numa das melhores do Alentejo.
José Vilela Mendes, um beirão alentejano, alegre, bem-humorado e empreendedor, merece, pela sua persistência e dinamismo, estas singelas notas de homenagem.
Onde quer que estejas, amigo Vilela: Avec Spandex!Signifique lá esta expressão o que significar....
Mário Mendes in "O Distrito de Portalegre" - 22/10/09

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

OPINIÃO: As eleições para as autarquias locais e o que mais adiante se verá

O deputado municipal do PSD, Francisco Toco, apresentou um documento na sessão ordinária da Assembleia Municipal realizada no dia 28 de Dezembro e no qual aborda diversos factos ocorridos, desde a preparação das listas, passando pela campanha e o acto eleitoral, finalizando com uma leitura crítica sobre a instalação da Assembleia Municipal. Um documento que, apesar de extenso publicamos, por se tratar de matéria que deveria merecer uma reflexão por parte de todos os partidos concorrentes às autarquias locais.
"Nesta 1.ª Sessão Ordinária de trabalho da AM, saída das eleições de 11 de Outubro último, o PSD faz questão de trazer ao Órgão deliberativo e Fiscalizador da Câmara Municipal de Nisa, no período “Antes da Ordem do Dia” um documento escrito, em Português… Suave, para leitura, que de modo sumário aborda: “A preparação das Listas para o acto eleitoral; Quanto à Campanha Eleitoral; O modo como decorreu o acto eleitoral de 11 de Outubro; Sobre a publicidade da tomada de Posse dos Eleitos; As formalidades da tomada de posse do Executivo e a instalação da Assembleia Municipal; E ainda quanto às instalações, ao pessoal e ao regimento desta Assembleia.
Na verdade, o documento é escrito porque as palavras que efectivamente se querem pronunciar aqui, são estas, mesmo estas e não outras que poderiam acontecer, se a intervenção fosse oral. Assim,
Da preparação das Listas para o acto eleitoral
Não fosse o caso de se ter constatado, que pessoas houve que não quiseram integrar as listas, in casu as do PSD, com medo de serem alvo de perseguições, no seu trabalho, por parte de alguns agentes do poder executivo da Autarquia, continuaria a desconhecer-se, que aqui em Nisa, no Século XXI, o 25 de Abril, parece não ter chegado cá, 35 anos depois, do nosso vizinho Capitão Salgueiro Maia, ter mandado o Marcelo Caetano, e tudo o que ele representava, às Malvas pró Brasil! E por falar de Marcelo Caetano, lembramo-nos de Salazar e, ambos trazem à memória os presos políticos, nomeadamente os deste Concelho, sendo que alguns eram presos e cumpriam pena, sem que alguma vez houvesse acusação formulada contra si, de terem cometido crime algum e, nesses e por todos, recordo Mário do Rosário Tôco, in casu, meu Pai, que durante cinco longos meses, nesse já longínquo ano de 1944, do século passado, naquela situação esteve detido em CAXIAS, em consequência dos acontecimentos conhecidos em Nisa como a ”Revolta do Pão”. Mas, para além dos presos políticos recordamos também, aqui e agora, todos os Emigrantes Nisenses, que a partir do final dos anos 50 e durante a toda a década 60 e princípio dos anos 70, partiram para a França e outros Países, à procura de um mundo melhor, para além desta terra, que lhes foi madrasta e, a verdade bem amarga, é que todos os Executivos anteriores a este, que são fartos em festas e festinhas, excursões e excursõinzinhas e muitas, mas mesmo muitas mordomias, nunca se dignaram, até hoje, prestar-lhes a devida homenagem, através de monumentos próprios, feitos em pedra de Nisa, que não importada…! Para a história aqui fica a crítica. Continuemos,
Forças políticas houve que na elaboração das suas listas omitiram à população, descaradamente, com objectivos que só eles poderão explicar, a Entidade Patronal dos candidatos, a profissão que exerciam, talvez porque se o fizessem algumas listas mais pareceria que iriam concorrer à comissão de trabalhadores de um qualquer serviço da Administração Local. Já para não falar das notícias em jornais da Região atribuindo profissões que os candidatos não tem, nem legalmente poderiam ter e daqueles que dizem ter uma profissão que nunca na vida tiveram mas que sonham, vir a exercer um dia, sendo que é legítimo o sonho, não a mentira. Isto é faltar à verdade.
Quanto à Campanha Eleitoral
É nosso entendimento que decorreu com alguma normalidade, pese embora os actos de puro vandalismo, praticados, primeiro em cartazes do PSD, depois em cartazes do PS.
É certo que, publicamente, houve um comunicado de uma dita Comissão Coordenadora da CDU que referia que tais actos eram “…uma enorme falta de respeito … pelos candidatos…”. Foram os únicos que se interessaram, publicamente, com tais actos, e isso deixou-nos ainda mais preocupados, em função do muito que se foi ouvindo ao longo da campanha.
Quanto ao modo como decorreu o acto eleitoral de 11 de Outubro.
Pelo que nos foi dado conhecer, entendemos que decorreu com pequenas anormalidades. Não podemos nem queremos deixar de referir, o que é do conhecimento de todos: a chapelada na Freguesia de Amieira do Tejo. A União Nacional ou a Acção Nacional Popular, i.é, quer no tempo de Salazar quer no tempo de Marcelo Caetano, não se faria melhor. É certo que a votação foi encerrada, mas décadas já passaram desde o 25 de Abril e o que se pode dizer é que…, não necessitavam de violar tanto o direito…, para ganhar eleições, veja-se, o que em tais situações a Jurisprudência do Superior Tribunal Constitucional determina.
Sobre a publicidade da tomada de Posse dos Eleitos.
A quem competia organizar a cerimónia quis, de modo subjectivo e, objectivamente, afastar da mesma a população do Concelho de Nisa. Porque se assim não fosse, desde logo a cerimónia teria decorrido em espaço mais amplo e mais nobre, do que esta assoalhada da Biblioteca Municipal. Mais, o Site da Autarquia deveria, imperiosamente, ter dado publicidade da mesma e não deu, quer antes, quer depois da posse, aliás dá muito pouca publicidade ou nenhuma, nomeadamente às Sessões desta Assembleia. De quem será a responsabilidade?
Na Quinta-Feira, dia 29 de Novembro, entre outras referências, o site publicitava o filme dos “Sacanas sem Lei”, mas sobre a cerimónia da tomada de posse dos eleitos nas autárquicas, era omisso, nada! Coisa que pouco interessava e não mereceu o relevo do site, contrariamente ao site do Partido Socialista, aqui representado, que publicitava as tomadas de posse de todo o Distrito, sendo que o do PSD, dias antes, deixara de existir. Mas, segundo informação que corria, de fácil constatação no local, não se publicitou à população mas houve tolerância de ponto, para que funcionários afluíssem à posse e… batessem palmas! É caso para dizer: há população de 1.ª e de 2.ª. A uns nem informação se dá, a outros dispensam-se de trabalhar. Não é de palmas nem bajulação que o Concelho de Nisa precisa. É de actos positivos com repercussão no seu futuro e esses, esperamos que este Executivo os pratique, já que os anteriores deixaram muito a desejar!
E no dia 31, publicitação da tomada de posse… nada. Mas no site, lá continuavam os “Sacanas sem Lei”, e só ao sétimo dia, Quinta-Feira seguinte é que o Administrador do site entendeu dar relevo ao acto de posse desta Assembleia Municipal. Daqui apelamos, a quem manda e gere o site, para que o mesmo se actualize “em cima da hora”, a bem da população do Município e daqueles que dele querem saber notícias, exemplo, objectivo, da sua má gestão é este: no dia 2 de Dezembro ali se publicitava um torneio de snooker, de uma Associação local, que se terá realizado entre 12 e 19 de Novembro e quinze dias depois ainda lá continuava!? A quem interessa este tipo de informação? Mas como este existem muitos…
A tomada de posse do Executivo e a instalação da Assembleia Municipal.
Em consequência do que atrás se afirmou, o local escolhido, por quem detinha o poder de o escolher e mandar, não foi o melhor, senão recorde-se o cenário: Os eleitos para a Câmara, na primeira fila da sala…todos juntinhos! Quanto aos Eleitos para a Assembleia Municipal, como se fossem filhos segundos da democracia, desde não terem lugar na própria assoalhada/Auditório, a terem que ficar lá fora na rua…de tudo houve, e não foi decerto por estar tudo muito bem organizado. Diga-se ainda que o Governo actual, que não é exemplo para ninguém, na cerimónia da tomada de posse de 30 Secretários de Estado, demorou 30 minutos. Aqui, a tomada de posse de 15 Deputados Municipais, levou três horas e tal. Porquê? Em nosso entender, desde logo por falta de pessoal afecto a esta Assembleia, lacuna que urge resolver, nos termos imperativos da lei.
Quanto a Organização ficamos falados e aqui fica a crítica, para, se possível, emenda no futuro. Mas, qual não foi o espanto da Assembleia, constatar que a eleita Vereadora Presidente da CDU, tomou posse, e de seguida a primeira eleita Vereadora pelo Partido Socialista negou tal posse, sem a formalidade de juramento. Eis senão quando o Senhor Presidente da Assembleia Municipal cessante, comunica à Assembleia que: se estava a fazer como no último mandato, em que tal juramento não foi prestado!? Ora,
Porque tal juramento é fundamental e necessário para a legalidade da posse, as formalidades legais são para se cumprir, compreendeu-se naquele momento, e dizemos isto neste espaço e não antes porque é aqui que o queremos dizer, razões porque nos últimos cinco meses se praticaram habitual e regularmente, (com o objectivo de influenciar o resultado das eleições?) actos que poderiam ter sido praticados em anteriores ou posteriores exercícios e não foram, de que são exemplo:
- As diversas vezes que foi publicitada a abertura das Termas, sem que para tal houvesse por parte do Ministério da saúde o respectivo licenciamento, como era voz corrente;
- No custo e na oportunidade do momento da aquisição da obra dita “Valquíria”;
- No alcatroamento em Setembro/Outubro de algumas ruas na Fonte da Pipa e na Cevadeira;
- No alcatroamento de alguns acessos e outros não, vá lá saber-se o porquê na zona do “Depósito de àgua”;
- Na reclassificação, em cima do período eleitoral, que o despacho da actual Vereadora / Presidente faz questão de referir que não é obrigatória, de cerca de 90 funcionários da Autarquia;
- Nos concursos de pessoal, com actos praticados, nas antevésperas do acto eleitoral.
Assim, como tal juramento não foi efectuado, como devia e legalmente estavam obrigados os Edis, e porque existiu, no anterior mandato, uma maioria absoluta e ainda porque aqui foi dito pela Vereadora/Presidente, no passado dia 30 de Outubro, referindo-se ao mandato anterior que “Na Câmara houve sempre rigor e transparência no que se refere à gestão da coisa pública”, daqui lhe lançamos um apelo: que proponha ao Executivo actual, que seja efectuada uma auditoria, pelas Entidades Públicas competentes, e não por gente contratada que diz o que quer que se diga e quando, ao mandato que cessou no citado dia 30 de Outubro, porque decerto toda a Vereação, o cumpriu com honra e lealdade, disso não duvidamos, mas porque no acto público já citado se afirmou, não ter sido praticada tal formalidade essencial e fundamental, este é, o comportamento a seguir para as presunções que poderão surgir por essa anormalidade formal e legal. E,
Diga-se aqui, para que conste, contrariamente ao que corre nos blogs, que ninguém faz sacrifícios, para vir servir Nisa, quando mensalmente se auferia +/- 1.250,00 Euros de salário, e depois se passa a ganhar, mais do que o dobro, isto é uma média de 2.700,00 Euros Mensais!!!? Mas, aproveitamos para aqui afirmar que quem servir Nisa, e bem, terá o nosso apoio. Seja ou não nascido no Concelho.
Dito isto
Voltemos, à instalação da Assembleia.
Chamado, pelo Presidente da Assembleia cessante, o Deputado Municipal do Partido mais votado, o M. Il. Catedrático Professor Engenheiro João Santana, este de seguida, chamou para completar a mesa, os cabeças de lista Professora Teresa de Almeida da CDU e do PSD porque, segundo ele, aqueles deveriam ser o 1.º e 2.º Secretários.
Por tal desejo do PS não ser possível de concretizar, passou-se de imediato à votação, para se decidir se a mesa era eleita por listas ou uninominal. Votação realizada, com alguma controvérsia, foi decidido, por maioria, que a mesa desta Assembleia, seria eleita através de listas.
De imediato o PS apresentou a lista A, a CDU apresentou a lista B e o PSD, não apresentou lista.
Numa mais que aparente confusão com: quem apresentava qual lista, tomamos a liberdade, repito LIBERDADE, ouçam que estamos a falar de liberdade, de com autorização do Sr. Presidente da Mesa, enunciar que o PSD, não apresentava lista. A Lista A era do PS e a Lista B era a da CDU. Que crime de liberdade deve ter cometido naquele momento, porque de imediato pela Sr.ª Deputada Municipal Cabeça de lista da CDU, cujo principal partido da coligação que representa, foi em tempo, disso não duvido, o maior defensor da liberdade de expressão, foi-me retirado o microfone e dito que não podia estar a fazer aquilo! Palavras para quê?
Mas a mesa lá foi eleita e, é importante dizê-lo aqui e agora, que foram vários os emissores que trouxeram, não a carta a Garcia, mas a mensagem de que o PSD, se devia abster de quem seria a Presidência da Assembleia Municipal, mas a todos dissemos: A população do Concelho votou maioritariamente no PS, logo o PSD deve respeitar tal acto, tal como respeitaremos o voto para a Câmara.
Ora se a população, quis maioritariamente o PS na presidência da Assembleia Municipal, não somos nós, que vamos dar azo a que em jogos de secretaria, como ficou provado que os houve, se ganhe aqui o que não se ganhou na votação.
Quanto às instalações, ao pessoal e ao regimento
A Sr.ª Vereadora Presidente tomou a liberdade de, no fim da cerimónia da instalação da Assembleia Municipal, dizer que estaríamos errados quanto às instalações da Assembleia. Mas aqui desta tribuna, a da Oposição, o Grupo Municipal do PSD, lhe diz:
A lei é clara, é a lei e não nós que dizemos que:
A assembleia municipal dispõe, sob orientação do respectivo presidente, de um núcleo de apoio próprio, composto por funcionários do município, nos termos definidos pela mesa, a afectar pelo presidente da câmara municipal.
A assembleia municipal dispõe igualmente de instalações e equipamentos necessários ao seu funcionamento e representação a disponibilizar pela câmara municipal.
Finalmente… Uma palavra final ao Executivo
Eleições são eleições. Quem ganhou, independentemente dos modos como o fez, ganhou. Aqui da bancada do PSD, deixamos a seguinte mensagem: O que este Executivo, apresentar e fizer de positivo no mandato, segundo o nosso entendimento, independentemente da sua cor, terá o nosso apoio. Mas, de uma forma frontal também dizemos: Contem com o exercício dos poderes deliberativo e fiscalizador que a lei nos confere. Para tal é necessário que esta Assembleia assuma querer exercer o poder que a Lei lhe atribui. Desde logo é necessário que crie no seu âmbito COMISSÕES DE ASSEMBLEIA MUNICIPAIS, para fiscalizar: i. é, Acompanhar e fiscalizar a actividade da câmara municipal, dos serviços municipalizados,…e das empresas municipais; Acompanhar, com base em informação útil da câmara, facultada em tempo oportuno, a actividade desta e os respectivos resultados, nas associações e federações de municípios, empresas, cooperativas,…ou outras entidades em que o município detenha alguma participação no respectivo capital social ou equiparado; Apreciar, em cada uma da sessões ordinárias, uma informação escrita do presidente da câmara acerca da actividade do município, bem como da situação financeira do mesmo, informação essa que deve ser enviada ao presidente da mesa da assembleia com a antecedência de cinco dias sobre a data do início da sessão, para que conste da respectiva ordem do dia; Solicitar e receber informações, através da mesa, sobre assuntos de interesse para a autarquia e sobre a execução de deliberações anteriores, o que pode ser requerido por qualquer membro em qualquer momento; Aprovar referendos locais, sob proposta quer de membros da assembleia, quer da câmara municipal, quer dos cidadãos eleitores, nos termos da lei; Apreciar a recusa, por acção ou omissão, de quaisquer informações e documentos, por parte da câmara municipal ou dos seus membros, que obstem à realização de acções de acompanhamento e fiscalização;
Os diferentes Executivos desta Autarquia, nomeadamente de há oito anos a esta parte tiveram sempre uma Assembleia Municipal, demasiado subserviente com quem detinha o poder e exemplo flagrante disso é o não juramento do compromisso de honra no acto da posse. Neste Mandato, estamos certos, este Executivo, terá uma Assembleia Municipal Fiscalizadora, que decerto tudo fará para exercer os poderes que por lei lhe estão conferidos.
Temos dito."
Francisco Macedo Toco - 29/12/2009

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

OPINIÃO - Nos 25 Anos do Ressurgimento da Banda de Nisa

Vai a Sociedade Musical Nisense assinalar a passagem de um quarto de século sobre a data do reatamento da actividade musical da Banda de Nisa, ocorrido em 1982, na altura inactiva há uns bons pares de anos.
É-nos sempre agradável trazer à lembrança acontecimentos que, de um certo modo, fizeram parte da nossa vida.
O que representou para nós naquele tempo, a reactivação da Banda? Como aparecemos envolvidos no processo? Foi um acaso e por acaso este existe?
Já foi escrito e pode sempre repetir-se: o apelo está lá, a páginas 187 da Monografia da Notável Vila de Nisa (1956) onde o seu autor, prof. José Francisco Figueiredo, sentencia, referindo-se à Banda de Nisa.
“Actualmente nota-se bastante desinteresse e apatia pela sobrevivência de tão apreciável corporação, que a todos os nisenses devia merecer extremos de carinhoso patrocínio. O brio da nossa terra impõe-nos, a todos, o dever de não deixarmos morrer a instituição que, desde 1844, tem sido a alegria das nossas festas e que, nas horas de luto, jamais deixou de interpretar, em fúnebres acordes, a dor dos nossos lares”.
O apelo foi lido e não por acaso aí a temos, a respeitável Banda, agora já com 163 aos, porventura a mais antiga a sul do Tejo, tentando cumprir, com o “carinhoso patrocínio” se não de todos, de muitos nisenses, a missão que lhe foi destinada à nascença.
É emocionante relembrar, foi há 25 anos, em Outubro, a Banda ressurgia, no mesmo ano (1982) em Abril, reabria as suas portas a sede da Sociedade Artística Nisense, restaurada, após dois anos em obras, com um salão de festas ampliado, lindo, e se aqui e agora o recordamos é tão só porque naquele tempo, a “Música” e a “Sociedade” eram uma só e a mesma família.
Não fosse a “Música” e provavelmente a Sociedade Artística não seria o que hoje é, restaurada que foi com comparticipações destinadas à restauração da Banda.
Em paga, uns poucos, muito fizeram para escorraçar de lá a actividade musical (1987), o que conseguiram. Mas isto é outra história...
É claro que o ressurgimento da Banda não começa em 1982, mas uns bons quatro anos antes, em Janeiro de 1979, e só o referimos pela oportunidade de aqui lembrar o apoio incondicional por parte do executivo da Câmara de Nisa, no seu todo, onde pontificavam o Dr. Carlos Bento Correia, na presidência e o Dr. José Manuel Basso, no pelouro da Cultura.
Os 25 anos, entretanto decorridos justificam as expectativas que então se criaram?
Estamos conscientes de que a nossa opinião, para algumas pessoas menos avisadas, parecerá sempre suspeita devido ao envolvimento nosso, no passado.
Ainda assim, sempre diremos que, com avanços e recuos, menor ou maior brilho nas actuações, com mais ou menos grupos musicais em actividade, menos ou mais músicos em actividade, continua a ser positiva a acção e cremos que o será mais ainda no futuro próximo, agora que nos garantem estar finalmente aprovado o projecto da sede, que tudo o indica, vai permitir iniciar a obra, fundamental para a sobrevivência futura da Sociedade Musical Nisense.
Da nossa parte, que nunca fomos, nem alguma vez seremos adeptos do “quanto pior, melhor”, enviamos um abraço a todos os antigos e também actuais dirigentes e responsáveis técnicos nas pessoas do seu actual presidente, João Manuel Palheta Maia e maestro, António Maria de Oliveira Charrinho.

- João Francisco Lopes - 5/10/07 -in "Jornal de Nisa"

quarta-feira, 24 de julho de 2013

AUGUSTO PINHEIRO: Grande pintor Naif de Nisa

 (Discurso proferido no dia 20 de Abril de 1987 - Feriado Municipal - na Sessão Solene de Homenagem a Intelectuais Nisenses)
" Augusto Pinheiro, comerciante de profissão, viveu até aos 66 anos afastado das tintas e pincéis.
Fazia muitos desenhos para bordados, actividade a que se dedicava sua esposa.
Publicou dois números da revista de bordados "Ponto Real", com muitas flores e ramagens.
Ficava bastante impressionado quando visitava uma exposição de pintura, e com o desejo enorme de começar também a pintar.
Um dia pegou num lápis de cor e papel e fez um lindo desenho. Do papel passou ao pano e começou a fazer um pequeno quadro. Daí em diante nunca mais parou. Em 1970/71 passou pela casa Ferreira a comprar as primeira tintas a óleo, os secantes, e aprendeu a isolar as telas de linho, as quais também são preparados por si.
Dois anos mais tarde, já com os quadros prontos, escreveu ao senhor arquitecto, crítico e pintor Mário de Oliveira, pedindo o favor de passar pelo seu escritório para lhe mostrar umas simples pinturas. Viu, gostou, e o pintor nem queria acreditar, parecia uma criança, pois julgava que tudo aquilo era uma brincadeira sem valor.
Foi o arquitecto Mário de Oliveira que o encaminhou e encorajou para continuar a pintar, pois logo qure tivesse duas ou três dezenas de quadros, voltaria a aparecer para seleccionar algumas das suas obras para um dia fazer uma exposição.

Augusto Pinheiro - O Circo
E assim foi, esta em Janeiro de 1974, na Galeria de Arte do Diário de Notícias.
Foi o seu primeiro êxito, pois a crítica a considerou como a mais coerente e inventiva. E pela mão daquele conceituado crítico, nesse mesmo ano, foi seleccionado para a exposição da A.I.C.A. (Associação Internacional dos Críticos de Arte), na Sociedade Nacional das Belas Artes, uma das exposições mais exigentes, porquanto é organizada por aquela associação.
A aprtir desta importante e significativa exposição a carreira artística de Augusto Pinheiro, teve sempre os maiores êxitos.
Em Madrid, em Maio de 1976, Agusto Pinheiro expõe na Galeria "Modena", especializada em arte "Naif". Foi um êxito total. Todos ficaram surpreendidos com a força cromática dos seus quadros, e, sobretudo, pela subtileza dos matizes.
Augusto Pinheiro, ganha aí os pergaminhos de um dos maiores pintores internacionais dentro do movimento "Naif", de tal maneira que o grande psiquiatra espanhol Vallejo Nagera, autor de vários livros e ensaios sobre a arte "Naif", classificou Augusto Pinheiro como um caso singular, não só pela sua pureza de emoções, onde por vezes o poético e o mágico se integram, como principalmente pela capacidade do seu iluminismo exterior.

Exposição em Nisa (1981) com a presença do Presidente da República, Ramalho Eanes
Não merece apenas citar os seus grandes êxitos artísticos depois desta exposição de Madrid, mas é justo dizer que chegou até Paris, no Salão dos Independentes, em Janeiro de 1982, e que em Lisboa teve em seguida grandes êxitos, mormente nas exposições da Galeria de S. Francisco e na Galeria "O País".
Como estamos na terra do pintor, é justo informar ainda, que Augusto Pinheiro, obteve também grandes êxitos nos Salões Ibéricos, organizados pela galeria do Casino Estoril, considerando o director desta prestigiosa galeria, Dr. Lima de Carvalho, as pinturas deste puro Naif como das melhores.
Augusto Pinheiro, continua a pintar com um entusiasmo autenticamente juvenil, o seu mundo imaginário, a sua ingenuidade perante o aspecto inspirador, e a transformação formal das coisas objectivas, deve ser entendido como o caminho pela qual o artista se alcança a si próprio, numa convicção íntima de toda a autenticidade da substância do seu ser.

Augusto Pinheiro - O Milagre das Rosas (Santa Isabel) - 1984
Meus senhores, e minhas senhoras, para terminar, penso que talvez seja oportuno dizer, o que é a pintura "Naif". Como se sabe, "Naif" é uma palavra francesa que tem muitos e variados significados, tais como ingénuo, simples, espontâneo, puro, etc. É uma arte, que nada tem de comum com a chamada arte erudita, e que constitui hoje um dos fenómenos sociais e artísticos à escala mundial.
E, Nisa, pode-se orgulhar, de possuir entre os seus filhos, o pintor Augusto Pinheiro, que já está classificado como um dos pintores mais significativos, não só no âmbito nacional, como internacional.
A arte é, sem dúvida, a forma mais positiva de comunicação. O artista erudito comunica uma mensagem; o artista que pratica o Naif não nos oferece essa mensagem, antes pinta como quem conta uma história ou relato emocional da sua personalidade.
É, isto, afinal, que nos tem oferecido Augusto Pinheiro: contar histórias da sua imaginação, cheia de encanto, de pureza e de lirismo."

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

À FLOR DA PELE: Nisa, tão pobre estás!



Ó Nisa tão pobre estás
Cada vez mais pobrezinha
Já não tens dez tostões
P´ra comprar meia sardinha! (1)
São poucos ou nenhuns, os motivos de satisfação ao olharmos, retrospectivamente, para o ano que agora findou. A nível do concelho de Nisa bem pode dizer-se, sem receio de sermos desmentidos, que foi um ano em que o concelho “perdeu em toda a linha”.
Mais um ano desperdiçado
Diz o povo que “em tempo de guerra não se limpam as armas”, mas devem preparar-se os homens para as batalhas que se avizinham. Em tempo de crise e de agravamento dos problemas de natureza económica e social, mandaria o bom senso que a política local se norteasse pela prossecução de objectivos que tivessem em conta a necessidade de unir esforços e estes fossem orientados, prioritariamente, para a satisfação plena das necessidades das populações de um concelho cada vez mais envelhecido, despovoado e espoliado nos seus mais elementares direitos, entre estes, o acesso - em condições de igualdade aos dos residentes nas vilas e cidades – aos cuidados de saúde, à educação e à cultura.
 A realidade vivida em 2011 mostra, pelo contrário, que o concelho de Nisa tem vindo a regredir, em todas as áreas do desenvolvimento humano e que esse retrocesso é “fruto” não só, das políticas implementadas a nível do poder central, mas é, também, resultante do modo de actuação de um poder local fechado, voltado para si próprio e para as suas clientelas, que tem vindo a acumular, na mesma dimensão, erros e buracos financeiros, não aplicando, com rigor e sentido de justiça, os indispensáveis investimentos, no que toca a obras fundamentais para a melhoria das condições de vida dos seus habitantes.
A autarquia está pouco menos que paralisada. Dez anos de gestão desde 2001, a que se juntaram os do mandato anterior, foram um autêntico regabofe, com anúncios e concretização de iniciativas e obras faraónicas de que o concelho não tirou, até ao momento, qualquer mais valia.
Entaipar o futuro
As “Nisartes” deram no que deram: investimentos vultosos que geraram dívidas acumuladas. Depois, o vazio, para haver festa na praça ou para quando chegar novamente o festim eleitoral.
O designado, pomposamente, Centro Histórico da vila é o mais triste, vergonhoso e lamentável cartão de visita que alguma vez Nisa teve.
Era preferível fecharem a bastide, entaiparem as portas, como vêm fazendo muitos residentes nas casas devolutas para impedirem a sua vandalização e transformação em antros de droga e de doenças.
 As casas degradadas, em risco iminente de ruírem não merecem qualquer atenção da autarquia. Pode acontecer ali uma catástrofe, haver uma derrocada, pessoas feridas e desalojadas, mas isso pouco importa a uma Câmara mais voltada para o seu umbigo e em exportar uma imagem irreal, ficcionada.
Termas, Tejo, água, pedra, sol, tudo se desmoronou como que por encanto. Os habitantes do concelho vão pagar portagens na A23 (com “desconto”) talvez, como “compensação” por serem o único concelho que não tem acessos condignos à referida auto-estrada. Problema antigo, como muitos outros, que sucessivas vereações não quiseram ou não foram capazes de resolver.
A caricatura da política
Às razões de natureza técnica-financeira juntam-se-lhes as de ordem política, na sua face mais caricatural. A Câmara não publicita, no seu site, as actas das sessões do executivo. Vive-se, em Nisa, uma democracia, não musculada, mas mascarada, uma novela permanente, em que os munícipes são meros figurantes. Não se lhes reconhece capacidade crítica e quando algum tem a ousadia de apontar este ou aquele caminho, logo sobre ele se abate um coro de recriminações. Fazem-se propostas e projectos, de grande envergadura e arrojo, mas que não têm aplicação prática, nem qualquer utilidade visível e real. O projecto megalómano de Tolosa, a célebre Valquíria, as não menos “célebres” requalificações, onde a pedra fez jus ao logótipo da autarquia, o desleixo e a incúria que levaram ao abandono do Complexo Turístico da Barragem do Fratel, as festas e comezainas em inaugurações faustosas, são alguns dos exemplos de uma gestão local que arruinou e fez regredir, como nenhuma outra, o concelho de Nisa.
Ao tempo da abundância para “inglês ver” sucede agora o dos cofres e carteiras rotas e vazias, sem dinheiro – ou sem vontade – sequer, para acudir a obras simples e de extrema necessidade, como a da reparação da estrada do Pé da Serra, cujo piso aluiu há um ano na descida da Senhora da Graça.
 Perder em toda a linha
O concelho de Nisa perdeu, por decisão da ULSNA que a autarquia não contrariou, cinco extensões de saúde, num total de treze, no distrito. O “livro verde” da chamada reforma da administração local, aponta para a extinção de cinco freguesias, quatro das quais lideradas pela CDU.
Uma e outra situação – a concretizarem-se as extinções das freguesias rurais – não acontecem por acaso. O concelho de Nisa é golpeado, mortalmente, com a retirada de serviços essenciais, únicos, e de proximidade com os seus habitantes, em aldeias onde o envelhecimento, as baixas reformas e a falta de meios alternativos de transporte irão condenar à solidão e à morte prematura, centenas de cidadãos tão portugueses e de corpo inteiro como são os das cidades e vilas do litoral. É a discriminação, a segregação na sua forma mais violenta e despudorada, decretada por comissários nacionais dos grandes banqueiros e executada por gestores de falinhas mansas e fatos Armani.
Em Avis, os órgãos do poder local puseram-se ao lado das populações, não engoliram sapos, reagiram como cidadãos, clamaram pela justiça que lhes era devida e venceram.
Em Nisa, calaram, iludidos, talvez pela promessa de alguma verba para obra sonante.
Não reagiram, não informaram as populações e, sobretudo, não as congregaram em torno de um protesto (justo) que era de todos. Ficaram “bem vistos” pelo poder central e quando confrontados com a indignação e desencanto das populações, encenaram, à pressa, tão à pressa que deu nas vistas, um simulacro de protesto sob a forma de um comunicado partidário e de uma moção.
Falta de solidariedade institucional
A Câmara, muito ligeira a intentar acções judiciais quando se belisca o nome da sua presidente, não sabe onde ficam as mesmas instâncias se o objectivo é travar medidas injustas e discriminatórias contra os seus munícipes e repor a justiça.
Numa das regiões mais desfavorecidas do país, onde se requerem acções e medidas conjuntas das instituições para a resolução dos problemas com que se debatem, o município de Nisa parece viver na Idade Média, alheio e isolado dos problemas dos vizinhos, como se estes não lhe dissessem respeito.
 O encerramento do Ramal de Cáceres não nos diz nada? Não é connosco? O protesto contra a introdução de portagens nas SCUTs passa-nos ao lado e resolve-se com uma moção? Os acessos do concelho de Nisa à A23 estão bem assim? Não se deve lutar por acessos como os outros concelhos têm?
O direito dos doentes ao transporte gratuito em ambulâncias dos Bombeiros é um assunto encerrado? As corporações de Bombeiros vivem tão desafogadamente que podem passar sem essa fonte de receita?
Numa terra de artes, artesãos, de cultura, não existe uma política municipal nessa área, apoiando-se as associações sem um critério de rigor, de análise e de apreço pelo trabalho desenvolvido. Fundamental é ter iniciativas que, directa ou indirectamente, promovam o que a Câmara (não) faz e não belisquem com o trabalho desta, porque associações autónomas e independentes são olhadas de soslaio pelo poder vigente e consideradas “adversários”.
Um Cine Teatro “fantasma”
É uma gestão sem horizontes, sem planeamento de médio e longo prazo, fechada, para dentro de si própria e centrada nos objectivos políticos e eleitorais imediatos. Tão fechada que nem sequer consegue dinamizar, manter aberto, fazer desempenhar o papel que lhe cabe em termos da promoção e dinamização cultural, um espaço de excelência, dos melhores do Alto Alentejo: o Cine Teatro de Nisa.
Tudo isto seria triste e dramático se não constituísse, ao mesmo tempo, um paradoxo: foi a própria Câmara que salvou da ruína e do abandono e fez “ressuscitar” como marco cultural do concelho e região, o Cine Teatro. Ali, se projectaram, em estreia, filmes de grande sucesso, espectáculos de teatro e musicais com grandes nomes da canção, como Carlos do Carmo, Cesária Évora, Fernando Tordo e tantos, tantos outros.
Agora é um edifício quase “fantasma”, sem chama e sem vida. Não há dinheiro para exibir, semanalmente, um filme, quando no concelho vizinho de Vila Velha de Ródão há uma programação regular e cuidada.
Perante tamanha imagem de imobilismo, urge perguntar: como foi possível chegar a este “estado de coisas”?
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 4/1/2012

segunda-feira, 12 de março de 2012

À Descoberta do Património de Nisa (1)

Percursos Pedestres: um Guia por completar!
A edição de uma qualquer obra literária ou simples manuscrito, é sempre uma acção positiva e de louvar se a finalidade for preservar, oferecer ao presente e legar ao futuro algo com interesse para o concelho de Nisa ou seus habitantes.
Um bom exemplo é toda aquela vasta e valiosa colectânea literária exposta na Biblioteca Municipal, cerca de trinta títulos, quase todos eles de autoria de nisenses e que têm em comum, nos variados temas abordados, fruto de vivências, muito trabalho e experiência adquirida, a necessidade sentida de transmitir e partilhar o saber herdado.
Mas, também, nesta temática, há que ter cuidado, iniciada uma qualquer “caminhada” há que seguir em frente e terminá-la, retroceder ou parar pode não ser bom, inadequado, injusto até.
Uma edição verdadeiramente interessante e bem útil foi o “Guia de Percursos Pedestres” de Nisa, promovida pelo actual executivo camarário, vão quase cinco anos (2005).Mas, e não poucas vezes há sempre um “mas”, se nada há a opor no aspecto gráfico, já no conteúdo informativo nos parece haver falta de moderação, que vai sendo um vício por todo o lado, mas pior, bem pior, são as omissões ao quão de importante temos por ali, no espaço já contemplado pelos “Guias”, que nada ajudam o “turismo” que se vai invocando quase diariamente. Descuido? Outra razão? Ultrapassa-nos. Direitos de autor por certo não lhes seriam exigidos.
Não é correcto, por injusto, deixar o trabalho a meio, com as consequências negativas que daí advêm, divulgando uma fracção apenas do todo que é o concelho de Nisa. Cinco anos volvidos é tempo de completar a “caminhada”, promovendo a edição dos documentos ainda em falta, referenciando todo o valioso património ocultado.
Observe o leitor um qualquer mapa do concelho de Nisa e experimente traçar uma linha ligando o Percurso nº 1 (Trilhos de Jans – Amieira do Tejo) ao Percurso nº8 ( Trilhos do Moinho Branco – Montalvão).
Por certo vai constatar o seguinte: naquele espaço, a Norte, estão lá todos os “Percursos” editados (8), nada havendo que contemplar a Sul, espaço mais amplo, divulgando o valioso património existente e visível por aí.
As freguesias do Espírito Santo, Nossa Senhora da Graça, Arez, S. Matias, Tolosa e Alpalhão, têm um acervo patrimonial e paisagístico de grande importância, onde se vêem em quantidade, igrejas e ermidas, passadeiras nos ribeiros e também moinhos, pontes e fontes, furdões e barragens, antas, menires, sepulturas nas rochas e vias muito, muito antigas, de antes da nacionalidade portuguesa.
Vias por onde transitaram e transitam ainda tantos povos nossos parentes, fossem eles lusitanos, romanos ou sarracenos, peregrinos em romagem ou simples caminhantes de agora.
Bem, depois há a história dos sítios, das vilas e das aldeias, que não consta lá e é riquíssima, como é até mesmo aquelas que lá constam, nos Percursos já editados.
Mãos à obra, termine-se a “caminhada” iniciada, dando a todas as freguesias do concelho, sobre a forma de “Percursos”, a importância patrimonial e histórica que, efectivamente, têm.
Mais do que uma necessidade é um acto de justiça.
João Francisco Lopes in "O Distrito de Portalegre" (2009)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

MEMÓRIA - Marco da cultura popular no concelho

O Rancho Típico das Cantarinhas nasceu em 1964
Em 1964, as marchas populares em Nisa, estiveram na génese da criação de um grupo musical e etnográfico que, por muitos e bons anos, levaria bem alto e bem longe, o nome desta "terra bordada de encantos": o Rancho Típico das Cantarinhas de Nisa.
O seu principal obreiro e dinamizador foi Rodrigues Correia, um nortenho, artista amador de teatro, chegado há pouco tempo ao Alentejo.
As Maneirinhas (O início do Rancho)
"Nas marchas de Santo António, véspera da Feira das Cerejas, o ti Dionísio Calhabré e a senhora Teodolinda começaram as cantar as marchas", recorda Maria Dinis Pereira.
"Ela cantava e o ti Dionísio tocava o banjo. Deu-se em juntar muita gente. O senhor Rodrigues Correia, que estava em Nisa há pouco tempo e morava na Rua Direita, ouvi-os e juntou os gaiatos que por ali havia e começou a marchar com eles. O Rancho, a bem dizer, começou com uma marcha. Divulgou-se esta iniciativa e começaram a vir crianças de vários sítios da vila. Aí ele pensou em fazer uma marcha. Com a "Nisa Velhinha" e "A Porta da Vila", que são marchas, é assim que começa o Rancho."
Dinis Pereira ainda se lembra de, na véspera da Feira, à noite, os gaiatos andarem a marchar pelo recinto da feira e de o ti Fantocha, que tinha um botequim, começar a dar massa frita e pirolitos aos miúdos.
Por ocasião da inauguração da Casa do Povo de Nisa, Rodrigues Correia lembra-se de se apresentar com os miúdos trajados a rigor, no acto solene, presidido pelo ministro Gonçalves Proença. No início, o Rancho chamava-se Rancho Infantil de Nossa Senhora da Graça e manteve este nome quando apareceu o das Cantarinhas. Foi uma grande apresentação e a partir daqui as bases da criação do Rancho adulto estavam lançadas.
"No início não havia músicas, nem letras e muito menos recolha de modas tradicionais", explica Maria Dinis.
"O vizinho Luís Félix encarregou-se de fazer as músicas e ao Dr. Gomes Correia ficou a incumbência das letras. Foi assim que nasceram "As maneirinhas", Passinhos da Fonte da Pipa", "Bailarico da Senhora da Graça" , "As brincadeiras da Devesa" e "A moda dos estralos (popular/antiga)".
Com a memória bem "fresca" Maria Dinis não resiste a contar um episódio que esteve na origem da criação de mais uma moda.
" O senhor Rodrigues Correia viu que as moças escorregavam no sobrado e lembrou-se de pedir aos seus colaboradores ( Luís Félix e Gomes Correia) para lhe fazerem uma música em que dançassem descalços. É assim que nasce o estribilho, muito conhecido de: "Ai, ai eu de Nisa sou / Sapatos não tenho, ao balho (baile) não vou".
Outra curiosidade, residia na florinha que ornamentava os sapatos das raparigas.
"Os sapatos tinham uns pompons, umas bolinhas de lã, porque cá em Nisa dizia-se que quando as cachopas calçavam umas galochas, que era do mais barato que havia, as mães punham-lhe essa bolinha para dar mais graça e importância aos sapatos. No Rancho usavam- se as bolinhas vermelhas porque destacava no sapato preto e combinava com a cinta do traje masculino."
Artigo publicado no "Jornal de Nisa" - 1ª série - nº 

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

À FLOR DA PELE: José Francisco Figueiredo

Retrato de um professor e de um cidadão
Não conheci o professor José Francisco Figueiredo. Quando faleceu, a 27 de Agosto de 1951, eu tinha pouco mais de quatro meses de vida, mas não esqueço a influência que ao longo de muitos anos viria a exercer sobre mim, desde logo quando, dez anos mais tarde, recebi como prémio escolar a sua “Monografia da Notável Vila de Nisa”, oferecida pelo “Exmo Senhor Doutor João António da Silva Caldeira”, sendo director da Escola, António Paralta de Figueiredo, filho do prof. José Francisco Figueiredo.
O registo que segue é uma evocação e homenagem a um homem bom de Nisa, rigoroso e metódico professor, defensor do Estado Novo e da moral cristã, mas, acima de tudo, um bairrista, talvez o maior e mais dinâmico promotor da “pátria nizorra” e do Alentejo no século passado.
O professor
José Francisco Figueiredo nasceu em Nisa, na Praça do Município, a 10 de Junho de 1884. Foram seus pais, José da Cruz Figueiredo e Josefa Tomásia Caldeira.
Entrou para a Escola Primária no Rossio, tendo como professor o Padre José Ribeirinho.
Fez a preparação para o Seminário e a instrução secundária, tendo ingressado no curso teológico que concluiu em 1902, no Seminário Diocesano, ao mesmo tempo que, com 18 anos, era diplomado pela Escola Normal de Portalegre.
José Francisco Figueiredo, aluno brilhante, não seguiu a carreira eclesiástica que se lhe augurara ao reconhecer que trilhara caminhos de vocação diferente da sua.
Em Nisa, ainda hoje, há que garanta que tal se ficou a dever ao facto de, numa das raras visitas à terra se ter enamorado da mulher com quem viria a casar. Verdade ou não, José Francisco afastou-se dos degraus do altar, mantendo um fundo sentimento religioso e inexcedível fervor. Nisa perdeu um padre e ganhou um professor. E que professor...
Começa a leccionar na vila em 1903, em cursos particulares das disciplinas de preparação dos Seminários e dos dois primeiros anos do liceu. De 1908 a 1911 desempenha o lugar de ajudante de professor na Escola do Rossio, do qual foi nomeado efectivo em 13 de Setembro de 1913.
Em Março desse ano é escolhido por ocasião da Festa da Árvore para proferir o discurso laudatório, sendo na ocasião editado um opúsculo “ O Culto da Árvore” que a Câmara de Nisa recentemente reeditou.
Ao ensino na Escola do Rossio, seguiam-se as lições no “laboratório”, designação para o espaço da casa na Rua da Fonte, onde vivia com a esposa Maria da Graça Paralta Figueiredo e os dois filhos Lucília e António, ainda crianças.
Era aí no “laboratório” que o esperavam, todos os dias, os alunos que o Mestre preparava para o exame ao liceu.
“Não lhe bastava ensinar – escreve João António da Silva Caldeira, autor da revisão e prefácio da “Monografia da Notável Vila de Nisa – queria que os alunos soubessem e para isso possuía e promovia, calorosamente, o gosto e o culto da perfeição”.
José Francisco Figueiredo foi professor na instrução primária de gerações de meio século e na secundária das de alguns lustros, tendo sido “mestre por vocação e devoção, por meditação e acção e por ciência e consciência”. (1)
Do curso particular que manteve durante vários anos, disse um dia que lhe “ficou a consolação de ter contribuído para alicerçar vigorosamente mentalidades que muito se têm notabilizado nos vários ramos da actividade social”.
Director da Escola Dr. Graça (Escola do Rossio) de 1923 a 1933, dinâmico e carinhoso protector da Caixa Escolar que garantia apoio aos alunos mais pobres, José Francisco Figueiredo é nomeado a 7 de Maio de 1929 como Inspector da Região Escolar de Portalegre, lugar que não manteve e a 13 de Junho de 1934 é nomeado delegado da Inspecção Escolar, funções com que terminou a sua carreira profissional em 1945.
Em 10 de Junho de 1950, em cerimónia realizada na Sociedade de Geografia de Lisboa e presidida pelo Chefe do Estado é-lhe atribuída a insígnia de Cavaleiro da Ordem de Instrução Pública, sendo escolhido, entre os agraciados para proferir o discurso de agradecimento colectivo.
Jornalista e cidadão interveniente
José Francisco Figueiredo não foi apenas um ilustre professor. A poucos nisenses, no século passado se lhe podem reconhecer o mérito de ter pugnado com tanta persistência e denodo pelo progresso da sua terra. Desde 1911 e até à doença que o viria vitimar, nunca o Mestre deixou de escrever e reclamar para Nisa a criação de infra-estruturas e o desenvolvimento de que carecia.
Publicou centenas de artigos, quer em jornais de âmbito nacional como o “Diário de Notícias” ou “O Século”, quer de cariz regional desde “O Distrito de Portalegre”, “Brados do Alentejo”, Correio de Nisa”, entre tantos outros.
Artigos que tinham um traço comum: a elevação de Nisa e do concelho, das suas gentes, e nos quais apresentava sugestões ou formulava protestos, pedindo a justiça que era devida.
Problemas como as instalações dos Correios, a tentativa (1933) de desmembramento do concelho com o projecto de anexação de Amieira ao do Gavião, a construção do Teatro Novo, a instalação de uma Biblioteca Pública e do Museu Regional, ou a implantação da rede de águas de abastecimento público, mereceram as suas críticas ou louvores, numa escrita escorreita e cristalina.
A defesa do património e a preservação dos usos e costumes da “Corte das Areias” estiveram também no centro das suas atenções. Alentejano e alentejanista, deixou brilhante colaboração nas páginas do “Almanaque Alentejano” e da “Revista Alentejana” da Casa do Alentejo.
Escreveu diversos artigos sobre as tradições de Nisa, desde o casamento aos modos de vestir (traje) em textos publicados na “Etnografia Portuguesa” sob a direcção de Leite de Vasconcelos.
Não se ficou por aqui a acção de José Francisco Figueiredo em prol da sua terra.
No campo social desempenhou funções na gerência da Misericórdia em 1911, 1915 e 1940, nestes dois últimos anos como Provedor.
Foi um cuidadoso bibliotecário do Clube Nisense, tendo enriquecido a modesta biblioteca com obras literárias obtidas através de pedidos aos sócios.
Elaborou os estatutos da Sociedade Artística Nisense; propôs e viu concretizada a erecção de um busto no jardim público de Nisa, em memória do médico Dr. Francisco Miguéns, inaugurado a 27 de Maio de 1945, tendo redigido e editado o opúsculo “O Monumento”, discurso proferido no acto solene e evocativo.
A Monografia de Nisa
O amor ao chão pátrio levou-o a escrever a “Monografia da Notável Vila de Nisa”, sequência de um trabalho original que em 1943 apresentou num concurso público promovido pelo SNI na Figueira da Foz. O trabalho com o nome de “Breve Monografia da Notável Vila de Nisa” viria a ser premiado e estimulou o insigne Mestre para escrever uma obra de maior envergadura que, de alguma forma, estabelecesse uma ponte e eliminasse o hiato decorrido desde a edição da “Memória Histórica “ de Motta e Moura (1877).
Esta foi a tarefa derradeira a que o Mestre meteu ombros e que, por sua infelicidade, já não veria publicada em letra de imprensa.
A “Monografia da Notável Vila de Nisa”, de José Francisco Figueiredo, com 482 páginas distribuídas por 15 capítulos viria a ser editada em 1956, cinco anos após a morte do seu autor, com lançamento público no dia 16 de Setembro de 1956, data em que lhe foi feita pública evocação com o descerramento de uma placa de romagem no jazigo do cemitério de Nisa onde repousam os seus restos mortais e com uma sessão solene no Cine-Teatro.
A questão política e a questão religiosa
A “Monografia da Notável Vila de Nisa” é uma obra que prestigia e enobrece a memória do seu autor e um tratado de referências históricas, sociais, económicas, culturais e até políticas que nenhum nisense ou estudioso pode ignorar.
Não será o retrato perfeito de uma determinada época. É uma visão do autor, num período histórico em que as liberdades de expressão e opinião estavam cerceadas.
Não se podia criticar o regime, nem tão pouco afrontá-lo, ao de leve, mesmo a nível local.
José Francisco Figueiredo, cidadão impoluto, conservador e católico, ousou enfrentar um presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Nisa, militar de carreira, servidor da Dictadura, o tenente António Falcão.
Descontente e indignado com algumas decisões que feriam e desrespeitavam conterrâneos seus, nomeadamente, médicos e farmacêuticos, o professor José Francisco assinou várias petições endereçadas ao Governo Civil de Portalegre, na altura liderado por outra figura militar, o capitão Vaz Monteiro, nas quais denunciava várias situações.
Tanto bastou para que fosse considerado “persona non grata” pelo tenente Falcão que, em desespero de causa, lhe exigiu, publicamente, a entrega de 7.257 escudos referentes à arrematação dos bens de D. Rosa Maria Mousinho, legados à Escola de Nisa e que estavam sob administração do professor José Francisco Figueiredo, por delegação da anterior Comissão Administrativa da Câmara, presidida pelo Dr. Francisco Mourato Peliquito.
Em 22 de Janeiro de 1931, na reunião da Comissão Administrativa (2), que integrava António Joaquim Fraústo, presidente, Júlio Mourato Grave e João da Cruz Carita (Canhoto), vogais, foram aprovadas “as contas apresentadas pelo prof. José Francisco Figueiredo, respeitando ao legado de Dona Rosa Maria Mousinho achando-as conforme, verificando com prazer que a administração do mesmo legado foi honesta”.
O tenente Falcão faltou, alegando doença. Não se conhece decisão posterior da Comissão Administrativa ou diligência do seu presidente, a formular qualquer pedido de desculpas e a repor a verdade dos factos. A Dictadura era mesmo...dura.
Católico convicto e fervoroso, José Francisco Figueiredo não temia a verdade, quando se tratava do bem supremo de Nisa. Por diversas vezes, em escritos dispersos ou na sua “Monografia” defendeu a manutenção da administração das ermidas da Senhora da Graça e da Senhora dos Prazeres por parte do Município como, de resto, desde tempos imemoriais acontecia.
A mesma percepção – honras lhes sejam feitas - tiveram várias administrações municipais que fizeram da manutenção do sítio da Senhora da Graça, um dos seus principais desideratos e só abdicaram dessa responsabilidade e dever quando confrontados com uma intimação do Ministério das Finanças, nos anos 40. E, mesmo assim resistiram e foram protelando como puderam, a sua transferência para a Igreja.
A Senhora da Graça nunca pertenceu à Paróquia. Que fique o registo e não se agitem mais fantasmas de “perseguições liberais” ou de “ódios republicanos”.
Homenagem tardia
José Francisco Figueiredo “serviu – cito uma vez mais o Dr. João António da Silva Caldeira – dedicada e cristãmente, os altos comandos espirituais e morais, ora a ensinar os patrícios e a engrandecer e enaltecer a sua terra, ora protegendo e auxiliando os da sua gente e socorrendo e encaminhando, pela palavra seguida de rigoroso exemplo, os desprotegidos e aguilhoados da desventura”.
Pelo seu exemplo, pelo seu carácter, pelo amor e dedicação à sua terra, não merecia que só após 50 anos da publicação da sua “Monografia” (2006) a Câmara de Nisa tenha resolvido atribuir o seu nome a uma rua da vila, no Bairro da Cevadeira, junto à Escola do Convento.
É uma história com final feliz, a de um cidadão e professor que “não passou a vida a servir-se”: SERVIU.
Nisa e os seus filhos que têm memória, agradecem.
NOTAS
(1) Dr. José António da Silva Caldeira – Prefácio – “Monografia da Notável Vila de Nisa”
(2) Actas das Sessões da Câmara Municipal de Nisa – 1929/1932
Mário Mendes in "Alto Alentejo" - 28/9/2011

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

VIDAS: José Manuel Barreto, um desportista de eleição

Na sua carreira de vinte anos a jogar futebol, só por uma vez viu ser-lhe mostrada a “cartolina” vermelha, num jogo, em Portalegre, com o Desportivo, sendo expulso do campo. Este é o único episódio da sua vida desportiva que recorda com alguma sensação de incomodidade. De resto, o passado futebolístico de José Manuel Barreto, é um registo de memórias que se confundem com a própria história dos tempos áureos do Sport Nisa e Benfica. Deixemos que seja o próprio a contá-la.
Campeão distrital pelo Sport Nisa e Benfica
Como tudo começou
“Nasci em Nisa em 1958 e cresci como tantos outros miúdos. Naquele tempo não havia “escolinhas” como há hoje e as ruas eram os nossos campos de jogos. Lembro-me de jogar à bola no pátio do Nisa e Benfica (quintal), atrás do Celeiro, na Devesa, onde calhava. Disputávamos jogos bem renhidos com a malta da Fonte da Pipa e da Vila, alguns bem durinhos e que, por vezes, havia sempre umas pedradas.
E as “arrelias” não acabavam aqui, pois quando chegávamos a casa ainda ouvíamos ralhar os nossos pais: “ Ah! Malandro, que dás cabo dos sapatos!”
Quando tinha 15 anos, uma direcção do Nisa e Benfica apercebeu-se que havia muitos jovens com qualidade e resolveu inscrever uma equipa no “Distrital”.
Foi assim que comecei a jogar em provas oficiais e nos juvenis.
Ainda me lembro bem do primeiro jogo. Éramos uns “putos”, pouco desenvolvidos e no balneário olhávamos para os do Campomaiorense, nessa altura um clube já com nome e dissemos uns para os outros: “vamos levar três ou quatro, eles são só matulões!”.
Em campo, o que se passou foi o contrário e ganhámos por 7 – 0, com 4 golos do João Temudo e 3 que eu marquei. Como é que foi isso? O nosso jogo era um pouco “à inglesa”, pontapé para a frente, eu e o João corríamos muito e era praticamente uma questão de sprint e marcar.
Conseguimos o 2º lugar no campeonato, um êxito logo na estreia e fomos disputar a Taça Nacional de Juvenis. Depois, a equipa “desfez-se”, alguns colegas foram jogar para outros clubes da região, principalmente o Alter que apostava nos juniores.

Com Néné - Internacional do SL e Benfica
Um jovem entre os adultos
“Eu não quis sair, fui ficando por aqui e com 17 anos estava a integrar a equipa de seniores que acabara de conquistar o título distrital e subira à 3ª divisão nacional (1975).
A primeira vez que joguei foi para a Taça de Portugal, em Portalegre, com o Sport Lisboa e Cartaxo. O prof. Moura saiu, faltavam aí uns 10 minutos para o jogo acabar, quando eu entrei e logo a seguir há um remate à baliza do Cartaxo, o guarda-redes defende, a bola foi ao poste e eu vinha em corrida, a acompanhar a jogada e marquei.
Ganhámos por 1-0 e foi uma loucura, pois tinha ido muita gente de Nisa.
Na eliminatória seguinte fomos jogar a Barcelos com o Gil Vicente, da 1ª Divisão. Eu também fui, como prémio por ter marcado o golo, mas não cheguei a equipar-me. Perdemos, como era natural, dada a diferença das equipas.
No ano seguinte, descemos ao distrital, mas houve alguns jogadores que regressaram como o Parreira, Vitorino, etc. e voltámos a subir à 3ª divisão e a passar à 2ª eliminatória da Taça, desta vez com uma deslocação ao Algarve. Fomos jogar com o Portimonense que tinha jogadores como o Damas, o Norton de Matos, Freitas, todos eles jogadores internacionais, para além de outros. Fomos eliminados e a nível de Taça de Portugal, que disputámos várias vezes, o Nisa e Benfica nunca teve sorte de jogar com um clube da 1ª divisão, já nem falo dos grandes, em “casa”.
Estivemos três épocas consecutivas na 3ª divisão, tínhamos uma equipa muito boa e constituída à base de jogadores de Nisa.”
“Tudo isto embora não houvesse condições e infra-estruturas. Lembro que no primeiro ano da terceira divisão não havia luz no campo e para treinarmos à noite, quando todos tinham disponibilidade, era coma luz dos faróis dos carros dos dirigentes. Não havia água canalizada, tinha que ser fornecida em bidões, faltava um mínimo de condições, mas havia uma vontade de ferro, amor à camisola e não ganhávamos nada.
Também é verdade que não havia discotecas, bares, internetes, outros desportos e isso facilitava a que a malta se juntasse para jogar futebol.”
Mudanças no futebol distrital
“As coisas mudaram com o reforço das equipas e o pagamento a jogadores, a nível distrital. Começou a ser mais difícil constituir equipas e subir de divisão.
Eu mantive-me em Nisa porque tive também a companhia do meu irmão (Toninho Barreto). Ele era defesa e eu avançado. Todo este percurso de dez anos (dos 16 aos 26) foi acompanhado por ele.
Depois de 10 anos consecutivos em Nisa, joguei uma época no Eléctrico (Ponte de Sor), mas era um pouco duro, já que trabalhava no Gavião e treinávamos quase todos os dias, pois o Eléctrico estava na 3ª divisão e tinha já alguns profissionais, o que elevava o grau de exigência. Em Ponte de Sor tive a sorte de defrontar um dos “grandes” do futebol português. Recebemos o Sporting para a Taça de Portugal, com o campo cheio e um espectáculo memorável. Perdemos por 1-2 e eu entrei na 2ª parte.
Depois do Eléctrico passei a representar os Gavionenses (trabalhava no Gavião) durante quatro épocas, uma na 3ª divisão e três no distrital. Tinha 31 anos, queria vir para Nisa e acabar aqui a carreira desportiva, mas os dirigentes do Castelo de Vide há muito que andavam atrás de mim e acabei por representar a AD de Castelo de Vide, uma época na 3ª divisão. Foi a altura, devo dizê-lo, em que ganhei algum dinheiro de jeito no futebol.
Aos 32 anos regressei ao Nisa e Benfica que representei durante mais três épocas, no distrital, acumulando numa das épocas a função de treinador juntamente com o António Veludo. Aos 36 anos, achei que estava na altura de dar o lugar a outros e pôr ponto final numa carreira desportiva de vinte anos, a nível competitivo.”
Recordações do jogo da bola
“Em tantos anos a jogar futebol há muitos momentos de que guardamos recordações. A do jogo com o Cartaxo para a Taça, talvez por ser o da estreia, ou os jogos emocionantes que tivemos em Nisa com o Bombarralense (vitória por 4-3 tendo marcado dois golos), o Rio Maior, que era o guia isolado e perdeu em Nisa pela primeira vez (3-2) ou ainda um célebre jogo com o Benfica de Castelo Branco que precisava de vencer para subir à 2ª divisão. O Campo do Sobreiro teve uma enchente nunca vista e o jogo foi empolgante. Eles tinham uma grande equipa, com jogadores muito experientes como eram o Camolas, o Malta da Silva e outros emprestados pelo SL e Benfica. Mas nós também tínhamos uma equipa muito aguerrida e unida, e “estragámos-lhes” a festa, não deixando que levassem a vitória (1-1).
O futebol e a formação do indivíduo
“O desporto, o futebol, deu-me muita coisa, principalmente muitas amizades. Na minha vida profissional, retenho muitos dos princípios básicos do futebol, o espírito de equipa, o trabalho de grupo.
Dos primeiros anos de jogador ficou uma amizade muito forte e que ainda hoje se mantém com os elementos da equipa de veteranos.
Em muitas terras e locais aonde vou, aparecem pessoas que me falam, cumprimentam e eu não sei quem são. Mas eles lembram-se de mim, talvez por me terem visto jogar.”
“Marcas” que o desporto deixa
“Uma carreira desportiva de 20 anos tinha que deixar algumas marcas. Tive como todos algumas lesões e as mais graves obrigaram mesmo a intervenções cirúrgicas. Fiz duas operações, devido a uma fractura do braço e a uma fractura no joelho.
As pessoas que me viram jogar, podem falar melhor do que eu, mas acho que fui sempre um jogador disciplinado e só uma vez é que fui expulso.
Num jogo com o Desportivo, levei uma cotovelada no maxilar, que me doeu bastante e reagi instantaneamente ao pontapear o jogador que me tinha agredido. Fui expulso, senti-me revoltado, por ter sido agredido e por ter respondido daquela maneira, mas acho que não é nenhum exemplo de que me possa orgulhar.”
Conselhos para as novas gerações
“Que conselhos daria aos mais jovens? Aqueles que tenho dado ao meu filho, incutindo-lhe o prazer de jogar futebol, os valores do espírito de grupo, da camaradagem e de uma vida saudável, sem esquecer o dever da disciplina e o respeito pelos outros, sejam companheiros ou adversários. Para aqueles que sonham em ter uma carreira futebolística, aconselho-os a terem humildade, a trabalhar e que encarem o futebol como uma possível profissão, mas sem nunca desprezarem o aspecto do convívio e da amizade. O futebol é um desporto muito importante, mas não devemos fazer dele um objectivo de “vida e ou de morte”. Pratiquem desporto, joguem com prazer, futebol ou outras modalidades, hoje, felizmente, há muitas mais ofertas do que aquelas que eu tive enquanto jovem.”
O desporto em Nisa, ontem e hoje
“Acho que mudou muita coisa e nem sempre para melhor. Nos anos 70, todas as casas comerciais, consoante as suas possibilidades, ajudavam o clube. Não havia condições nem infra-estruturas, como referi, mas havia uma grande vontade, malta muito unida, uma mística no Nisa e Benfica que fazia com que fossemos respeitados em todo o distrito. Jogava-se por amor à camisola, pelo prazer de jogar e hoje há a expectativa de tirar algum rendimento. O campeonato distrital é reflexo desse mesmo paradoxo: há clubes que têm dinheiro e clubes que fazem das tripas coração para conseguirem chegar ao fim. Há um grande desequilíbrio e assim o futebol não progride.
Sinto que o projecto do futebol juvenil terminou de forma abrupta, sem se acautelarem algumas situações, como a dos jovens que estavam nesses escalões e a quem foram cortadas alguma expectativas.
A nível de infra-estruturas, Nisa continua sem um campo com piso sintético, capaz de cativar os mais jovens. Terras mais pequenas e sem o historial desportivo de Nisa têm esse problema resolvido.”
Se pudesse voltar atrás...
“Todos nós temos um tempo para viver. Eu vivi o meu, enquanto desportista. Não me arrependo em nada por aquilo que fiz pelo Nisa e Benfica e pelo contributo que dei ao futebol e ao desporto. Poderia ter havido outro reconhecimento, mas sinto-me feliz e orgulhoso por tudo o que dei ao futebol e a Nisa e também por aquilo que o futebol me deu.”
Pelo amor à camisola
José Manuel Tremoço Barreto, bancário, 50 anos, casado, dois filhos, vinte anos de jogador de futebol. O resto da sua história de vida, fiel aos princípios por que se bateu ao longo de uma carreira desportiva, que atingiu grande brilhantismo, pouco mais teria que contar. Nasceu em Nisa e para o clube da sua terra contribuiu, não apenas com os golos que marcou, muitos golos, com os pés ou a cabeça, mas como um exemplo, notável, de humildade, disciplina, dedicação ao futebol.
Predicados que fizeram dele e o dos clubes que representou (o Nisa e Benfica em primeiríssimo plano) referências no desporto regional e nacional, numa época em que ser desportista significava, em primeiro lugar, ter amor à camisola, prazer de jogar e competir, arrojo e desafio perante as adversidades.
José Manuel Barreto e tantos outros, são os lídimos representantes dessa escola de desportistas que projectou e fez respeitar o nome de Nisa.
Se mais não fosse, só por isso mereceria, incontestavelmente, o reconhecimento que, aqui e agora, lhe prestamos.
Mário Mendes - in "Jornal de Nisa - nº 255